Política Energética, Regulação, Setor Elétrico, Gás Natural, Energias Alternativas, Empresas e Negócios

Georgieva, do FMI, alerta que preço da energia é um dos três grandes problemas da economia mundial

A economia global está presa em um cabo de guerra entre o choque de energia e o boom da inteligência artificial (IA), forças que testam a resiliência demonstrada após uma série de crises, afirmou nesta quarta-feira (7) a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. Ela disse que o aumento da dívida pública mundial – a caminho de superar 100% do PIB – acrescenta uma terceira fonte de pressão.

Em discurso em Singapura, como prévia das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial na próxima semana em Bangcoc, Georgieva apontou esses três vetores como centrais para as discussões de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais. Segundo ela, melhorar o desempenho fraco do crescimento nesta década dependerá de navegar “três grandes correntes”: chegada acelerada da IA, preços de energia persistentemente altos e níveis recordes de dívida pública.

Georgieva disse que uma crise energética mais longa do que o esperado, causada pelo conflito no Oriente Médio, vem alimentando inflação e adicionando mais um choque de oferta, enquanto persistem os gargalos ligados à guerra na Ucrânia. Isso forçou muitos bancos centrais a elevar juros e reforçou expectativas de novas altas.

Com o aperto das condições financeiras, aumentaram preocupações com a saúde fiscal de economias avançadas, como os EUA, e os rendimentos dos títulos soberanos subiram a máximas de vários anos. “Rendimentos elevados estão inflando a conta de juros em um momento de restrições orçamentárias e prioridades concorrentes, incluindo defesa”, afirmou.

Ela avaliou que medidas como diversificação de fontes de combustíveis e uso de reservas estratégicas contiveram a turbulência após a crise com o Irã, mas afirmou que a recuperação dos fluxos no Golfo permanece frágil e que o petróleo ainda gira em torno de US$ 100 por barril. Ao somar um déficit estrutural global de capacidade de refino, isso ajuda a explicar preços recordes no varejo para diesel e outros derivados. O fornecimento de gás natural do Golfo segue “severamente” interrompido, atingindo especialmente Ásia e Europa.

Indicadores como pesquisas com gerentes de compras (PMIs, em inglês) sugerem que a indústria tem suportado relativamente bem, mas Georgieva alertou que empresas só conseguem absorver pressão sobre margens até certo ponto. Mesmo que a guerra termine em breve, ela disse que preços altos de energia devem persistir por algum tempo, observando que futuros do Brent indicam petróleo caro até 2027.

Nesse cenário, Georgieva destacou que rendimentos dos títulos de 10 anos dos EUA, Alemanha e Japão estão nos maiores níveis desde 2007, 2009 e 1996, respectivamente, e ainda sobem. Ela afirmou que déficits elevados e custos de serviço da dívida reforçam a avaliação de que faz sentido bancos centrais adotarem postura mais dura e considerou “muito apropriado” que Federal Reserve (Fed), Banco Central Europeu (BCE) e Banco do Japão (BoJ) tenham elevado juros e endurecido o discurso.

Ao mesmo tempo, a IA tem sido fonte importante de resiliência, alertando para riscos como a expansão da demanda por energia e o próprio boom de construção de infraestrutura, que pode ser inflacionário. Além disso, a diretora-gerente citou a concentração econômica e financeira em tecnologia como fator de vulnerabilidade e afirmou que, se os lucros esperados com IA não se confirmarem, a alavancagem de grandes empresas de nuvem e a elevada exposição global a ações americanas podem transformar frustração em choque amplo.

Como primeira linha de defesa, Georgieva apontou regulação e supervisão. Ela citou alertas de que modelos de IA de fronteira podem afetar o sistema financeiro, mencionando que a Anthropic defendeu desacelerar o desenvolvimento e que a OpenAI cancelou o lançamento de um modelo de nova geração por questões de segurança.

No campo fiscal, “onde todas as pressões se encontram”, Georgieva pediu que economias avançadas muito endividadas adotem planos críveis de consolidação no médio prazo.

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