Flávia Silveira (*)
Na semana passada, o Google e a Cypress Creek Energy anunciaram o início da construção das duas primeiras fases do projeto Steel River Energy Center. As duas primeiras fases, com operação prevista para 2029, somam 1,6 GW de geração solar e 2 GWh de armazenamento em baterias, volume já garantido pelo contrato assinado com o Google.
Quando concluído, em suas três fases, o empreendimento será o maior projeto de energia solar com armazenamento em baterias dos Estados Unidos, com 2,5 GW de capacidade solar e 2,9 GWh de armazenamento.
No acordo, o Google assinou um contrato de compra de energia (PPA) de longo prazo com a Cypress Creek para toda a produção do Steel River Energy Center, empresa que já desenvolveu 12 GW de projetos solares e tem um pipeline de mais de 20 GW em solar e armazenamento.
O Google × Steel River Energy Center é um dos projetos de energia mais emblemáticos anunciados em 2026 porque combina, em uma única iniciativa, um PPA virtual (a energia é entregue à rede elétrica, enquanto o Google recebe os atributos ambientais e liquidação financeira), geração solar em escala gigawatt e armazenamento por baterias.
O contrato faz parte da estratégia da Google para ampliar o uso de energia limpa e atender ao crescimento da demanda elétrica decorrente da expansão de seus data centers e das aplicações de inteligência artificial. Segundo a empresa, seu consumo de eletricidade aumentou 37% no último ano, impulsionado principalmente pela expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
Ao contrário da maioria dos PPAs corporativos da década passada, baseados apenas em geração renovável, o Steel River já nasce integrando armazenamento em larga escala. Ele representa uma mudança importante na estratégia energética dos hyperscalers, na qual o objetivo não é apenas contratar energia renovável, mas também agregar armazenamento, flexibilidade e maior confiabilidade para o sistema elétrico.
Mais do que contratar energia, grandes consumidores passam a atuar como indutores da expansão da infraestrutura elétrica necessária para suportar a economia digital.
O projeto evidencia ainda que grandes consumidores estão evoluindo de uma meta de 100% renovável em base anual para soluções capazes de oferecer energia livre de carbono com maior disponibilidade temporal, em linha com a estratégia de 24/7 Carbon-Free Energy do Google.
Para o setor elétrico brasileiro, esse caso demonstra que a próxima geração de contratos corporativos tende a ir além da compra de MWh ao menor preço e incorporar elementos como: integração entre renováveis e armazenamento, gestão de risco por meio de PPAs, atendimento à demanda crescente de data centers e IA e entrega de atributos ambientais e de confiabilidade.
Em outras palavras, o Steel River mostra que o produto comercializado deixa de ser apenas um MWh e passa a incorporar atributos de flexibilidade, armazenamento, gestão de risco e confiabilidade.
Essa transformação tende a influenciar a evolução do mercado livre brasileiro nos próximos anos.
(*) Flávia Silveira é graduada em Engenharia Química. Executiva de Desenvolvimento de Negócios na área de Energia. Tem mestrado em Energia pela PUC Rio.