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Qual é o limite do puxa-saquismo no ONS?

Desde o fim da ditadura militar e a gradual privatização do sistema elétrico, é possível acompanhar o crescimento do puxa-saquismo no setor.

Empresas e associações empresariais que as representam são mestras na arte de puxar o saco das autoridades, sejam elas do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário.

O editor deste site já é um jornalista idoso, com 50 anos de profissão. Nesse período, já viu de tudo nos 30 anos que está mais perto do setor elétrico, seja como jornalista, seja como executivo de uma associação empresarial.

Embora não queira absolver ninguém da arte de ficar eventualmente pendurado nos bagos alheios para ganhar benefícios em algum negócio, o fato é que este editor entende a razão pela qual empresas e associações empresariais às vezes puxam o saco de alguma autoridade.

Investidores internacionais e brasileiros têm bilhões de reais aplicados na área de energia. Muita grana. E sempre acontece, em decorrência de algum mal-entendido, algum parecer mal formulado, alguma assessoria técnica incompetente, de o negócio ir para o buraco, devido a uma simples assinatura da autoridade. Então, os investidores acompanham tudo com lupas e ficam atentos para não perder dinheiro. Nessa guerra, vale tudo. É uma espécie de defesa.

Usam várias estratégias para estar bem com as autoridades e uma delas consiste, em muitos casos, no simples ato de puxar o saco. É assim no Brasil e no mundo inteiro. Ao escrever isto, o site “Paranoá Energia” não está inventando a pólvora, pois tem sido assim, sempre.

É preciso cuidado com aqueles que agem em nome do Estado, pois eles têm especial prazer em ferrar qualquer um. Existem inúmeros casos na área de economia em que muitos empresários perderam praticamente tudo apenas porque olharam de modo meio enviesado para um burocrata autoritário qualquer.

Algo que é relativamente novo nesse processo é o puxa-saquismo entre representantes dos próprios entes estatais ou semi-estatais.

Houve um diretor-geral da Aneel que ficou famoso por puxar o saco de qualquer deputado federal do baixo clero, de qualquer estado, às vezes sem qualquer expressão política. Esse diretor parava tudo na agência reguladora para estender o tapete vermelho ao parlamentar inexpressivo, que às vezes era um mero suplente ocupando temporariamente o mandato. Era uma vergonha, mas era assim.

Ainda no âmbito da Aneel, também ficou famoso um diretor-geral que era totalmente submisso ao Ministério de Minas e Energia, mas num tipo especial de puxa-saquismo, o de caráter ideológico. Para esse cidadão, não tinha conversa: a Aneel não passava de mero apêndice do MME, ciao e benção. Nesse contexto, ele não queria nem saber: quem dava a palavra final era sempre o MME. Hoje, ainda tem gente na cúpula da Aneel que pensa dessa forma, desconhecendo que são possuidores de mandato para discordar do Executivo.

Existem inúmeros casos similares e o “Paranoá Energia” não vai ficar aqui listando todas essas asneiras. Mas também não pode deixar de registrar o que vem acontecendo no âmbito do ONS.

Todo mundo sabe que, devido aos acordos políticos, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, indicou para o ONS dois diretores sem conhecimento técnico da Operação do setor elétrico e que foram premiados para os cargos por questões meramente políticas. Apenas para agradar aos poderosos.

Isso poderia ser evitado, mas não é a questão principal. O que interessa aqui é o puxa-saquismo que tem sido observado no ONS.

Vale lembrar que os atuais dirigentes do Operador, em setembro do ano passado, já tinham atribuído à sala do Conselho de Administração do Operador, no Rio de Janeiro, o nome do ministro Alexandre Silveira. O site “Paranoá Energia” registrou o fato, com total perplexidade. Uma vergonha, mas aconteceu.

O diretor-geral do ONS, Marcio Rea, está famoso em Brasília pois entra mudo e sai calado das reuniões do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que é uma espécie de ONS na veia. Ali, ele deveria reinar. Mas, como só conhece talvez o feijão com arroz, fica calado.

O mesmo Rea, que já havia aprovado o batismo da sala do CA do Operador com o nome do atual ministro, tem falado abundantemente através dos releases divulgados pelo Operador. Não é a melhor situação possível para a mídia, mas qualquer jornalista sabe que isso faz parte do jogo.

Nos releases do ONS, quem fala são os seus diretores ou técnicos autorizados a falar. O que é estranho e na visão deste site configura puxa-saquismo é o release do ONS, como aconteceu neste 31 de janeiro, colocar no meio do texto um blá-blá-blá atribuído ao ministro Alexandre Silveira.

Nesse release, Rea disse:

“Estamos no período úmido e, até agora, ele tem sido favorável para ajudar na recuperação dos reservatórios que compõem o Sistema Interligado Nacional. Além das afluências, temos também nesta equação as ações adotadas pelo ONS, que têm se mostrado eficazes “, destaca Marcio Rea, Diretor-Geral do ONS.

Até aí, tudo bem. Em seguida, entra Alexandre Silveira pegando uma carona no release do Operador:

“Os bons resultados refletem as ações coordenadas pelo MME e implementadas no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) que seguirá monitorando as condições de abastecimento e adotando as medidas que forem necessárias para garantir o suprimento de energia elétrica à sociedade brasileira”, reforça o Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

Esses caras precisam aprender que MME é MME. Lá, quem fala é o ministro ou outra pessoa por ele autorizada. Pode ser até o próprio Rea, que não é muito de falar.

Agora, o ONS é o ONS. Não é Governo. É uma entidade neutra, que tem uma relação técnica com o Governo, pois não poderia ser diferente. Entretanto, o Governo não é o dono do ONS. Não existe essa submissão. Então, o Dr. Rea que desculpe, mas no release no ONS quem fala são seus diretores. Colocar um blá-blá-blá do ministro Silveira ali é o mais puro puxa-saquismo.

Não é preciso levantar a bola para o ministro chutar. É possível que até o próprio Silveira fique meio envergonhado com esse tipo de situação, pois é coisa pequena, típica de jacu, gente da roça que não tem instrução, que não entende direito como funciona o mundo. Feito apenas para agradar. É possível que o próprio Silveira nem saiba o que está sendo feito em seu nome.

Não é para o ministro de Minas e Energia do Brasil.

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