Devidamente autorizado pelo autor, o site “Paranoá Energia” tem a satisfação de publicar o artigo semanal que o professor e consultor Edvaldo Santana disponibiliza em sua página no Linkedin. Eis a íntegra do texto:
“Entrei no setor elétrico em setembro 1975. Em novembro já estava na UHE Passo Fundo e, logo depois, na UHE Salto Osório, onde fiquei alguns meses. São usinas de 53 e 51 anos.
E o Brasil tem pelo menos 40 UHEs com mais de 50 anos, todas em operação. E 10 têm 70 anos ou mais. São elas: Guary (112), Ilha dos Pombos (102), Henry Borden (100), Fontes Nova (86), Herval (85), Passo do Inferno (78), Bugres (74), Nilo Peçanha (73), Canastra e Salto Grande (70).
Por que essas usinas duram tanto? São duas as razões: a primeira vem do planejamento e design: a parte mais cara e fundamental (barragem e estruturas civis) é construída para durar muito mais que um século, enquanto as partes que se desgastam (equipamentos da casa de força) são projetadas para serem substituídas, por isso operam 100 anos ou mais.
A segunda razão para a longevidade é o rigor das atividades de operação e manutenção. A durabilidade não é passiva, e sim conquistada com a gestão dos ativos. Portanto, a longevidade depende da empresa gestora dos ativos.
As barragens passam por inspeção regulares, visuais e instrumentais. Os equipamentos (turbinas, geradores e outros) têm rigorosas manutenções preventivas, que ampliam a vida útil. Tudo isso requer profundo conhecimento do estado da arte, o que não deixa espaço para aventuras. Com efeito, é por todas essas razões que, em geral, o prazo de outorga das UHEs é elevado, como 60, 75, 90 e até prazos indeterminados.
E as UHEs continuam essenciais. Além do fornecimento de cerca de 60% da energia gerada, as UHEs, mais do que volume, oferecem estabilidade e flexibilidade, que compensa a intermitência da solar e da eólica. E, mesmo nos dias atuais, de uma matriz elétrica bem diversificada, as UHEs são provedoras de serviços quase gratuitos, como a reserva operativa, capacidade de rampa e suporte de frequência. Assim, as UHEs, além de ainda serem a “turbina de base”, seguem como um dos alicerces que garante estabilidade, flexibilidade.
Ou seja, UHE é fonte de eficiência, robustez e, veja só, flexibilidade e modicidade tarifária. Nos próximos anos, começa o processo de renovação de boa parte das UHEs, em especial daquelas que foram privatizadas depois de 1995. Se o segmento de UHEs presta um serviço de excelência, que estende acima de 80 anos a vida útil da usina, por que trocar o gestor do ativo? Por que correr o risco da entrada de aventureiros ou de fundos de investimento que só pensam na “TIR”?
Há um caminho relativamente simples e até óbvio: consiste em calcular o bônus de outorga, que já tem previsão legal, a ser pago pelos atuais operadores das UHEs. Esse bônus seria destinado à redução da conta de luz.
Em outros posts mostrarei como calcular o bônus e os efeitos na tarifa. Aliás, o governo poderia antecipar a renovação até para UHEs cujo fim do contrato ainda esteja distante, tipo 10 ou 15 anos.
Ótima semana!”