Da Redação, de Brasília (com apoio do Instituto ClimaInfo) —
A Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP17) termina nesta sexta-feira (30), em Erevan, na Armênia, diante de um diagnóstico preocupante: o mundo não está avançando no ritmo necessário para deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. O primeiro relatório global de avaliação do Marco de Kunming-Montreal, divulgado pela ONU, mostra que menos da metade das metas nacionais avaliadas está no caminho certo. Enquanto os países negociam, o El Niño ganha intensidade e acrescenta pressão climática sobre ecossistemas que o mundo já tem dificuldade para proteger.
Uma pista sobre os riscos do novo El Niño para a biodiversidade está nos impactos do episódio de 2023–2024. Um estudo publicado em outubro de 2026 na Earth’s Future mostrou que cerca de 75% das florestas tropicais enfrentaram condições extremas de calor e seca por seis meses, em média. Já uma pesquisa publicada na Nature em 2025 identificou declínios na diversidade de artrópodes associados a episódios de El Niño, com consequências para funções ecológicas essenciais, como a decomposição da matéria orgânica. Esses resultados mostram como os extremos climáticos podem comprometer não apenas a sobrevivência das espécies, mas também o funcionamento de ecossistemas que já sofrem com o aquecimento global e a degradação ambiental.
O financiamento está entre os principais impasses da COP17. O Marco Global de Biodiversidade prevê reduzir, até 2030, em pelo menos US$ 500 bilhões por ano os subsídios prejudiciais à natureza, mas a primeira revisão global aponta avanços muito limitados. Enquanto os países discutem como ampliar os recursos para a conservação, os fluxos financeiros continuam sustentando atividades que aceleram a perda de biodiversidade.
O problema ganha outra dimensão diante deste novo El Niño. Florestas, oceanos e outros ecossistemas já degradados ficam mais vulneráveis aos extremos climáticos, e sua deterioração ameaça serviços essenciais à economia, como a produção de alimentos, o abastecimento de água e a regulação do clima. Em um planeta cada vez mais quente, conservar a biodiversidade significa também preservar a capacidade dos ecossistemas de resistir a esses eventos e de se recuperar deles.
Temperatura do Pacífico chega a +2,5°C, a maior leitura semanal do ano: o dado divulgado pela NOAA em 26 de outubro é o sétimo seguido na faixa muito forte. Abaixo da superfície, o calor acumulado nos primeiros 300 metros do Pacífico central e oriental segue estável em patamar elevado desde o fim de julho, e a agência avalia que o El Niño continua se fortalecendo, com mais de 83% de chance de seguir forte ou muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.
Seca avança para 73,4% do país, e a seca grave quase dobra: em setembro, a área sob seca chegou à maior extensão desde fevereiro de 2025, e a parte em seca grave passou de 4,5% para 8,6% do território, segundo o Monitor de Secas da ANA. O salto se concentra no Nordeste, com 27,8% da região em seca grave; em Pernambuco, essa faixa passou de 28% para 74% do estado em um mês, e a ANA cita a falta de chuva e as altas temperaturas de setembro. No outro extremo, a chuva acima da média mantém o Sul sem seca, o contraste entre Norte e Sul esperado pelo padrão histórico do El Niño.
Reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste param de cair, e Pernambuco se aproxima da faixa de pré-colapso: o maior subsistema elétrico do país ficou em 54,9% em 26 de outubro, praticamente estável, depois de quatro quedas seguidas. No Nordeste, os reservatórios monitorados pela Ana caíram nos seis estados com dado agregado, e Pernambuco perdeu 1 ponto percentual na semana, chegando a 32%, a 2 pontos do limite de 30%. O boletim agroclimatológico de outubro do INMET prevê, para dezembro, déficit de água no solo acima de 150 mm no oeste do estado.
Com a alta na Amazônia, os focos de calor de 2026 praticamente alcançam os de 2025: até 26 de outubro, o país somou 98.275 focos no ano, só 0,5% abaixo do mesmo período do ano passado, com outubro 21,3% acima de 2025. O Pará concentra 10.372 focos no mês, 3,6 vezes o de um ano atrás, e teve a área sob seca ampliada de 63% para 93% do estado entre agosto e setembro, segundo a Ana.
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