Política Energética, Regulação, Setor Elétrico, Gás Natural, Energias Alternativas, Empresas e Negócios

Petróleo vive incerteza com juros e recessão

Da Redação, de Brasília (com apoio da Hedgepoint Global Markets) —

Diante de um cenário econômico ainda incerto, a OPEP+ decidiu manter a restrição na produção de petróleo em cerca de 5,86 milhões de bpd. Assim, os fundamentos do lado da oferta continuam a ser o principal impulsionador altista para os principais benchmarks do petróleo, que acumulam alta de aproximadamente 5% em 2024.

Também foi decidido no último encontro da Opep, que as cotas permanecerão inalteradas para todos os membros com exceção dos Emirados Arabes Unidos (UAE), que receberam um adicional de 300 mil bpd
ao seu limite de produção.

De acordo com um relatório preparado pela empresa de consultoria Hedgepoint Global Markets, com a continuidade da restrição da oferta de petróleo, espera-se que o mercado permaneça em backwardation nos negócios envolvendo commodities (backwardation é uma situação em que os preços dos contratos futuros estão mais baixos do que os preços à vista -spot), durante o segundo semestre de 2024, pelo menos até setembro, quando termina a extensão dos cortes voluntários de 2,2 milhões de bpd.

A Hedgepoint entende que, nas próximas semanas, dados econômicos nos EUA deverão ganhar mais relevância para o mercado energético. A política monetária no país impacta diretamente o consumo de commodities energéticas.

No dia 02 de junho), a OPEP+ decidiu manter sua política de cortes na produção de petróleo. A Hedgepoint Global Markets aborda, em seu relatório, a decisão, que inclui a renovação dos cortes de 3,66 milhões de barris por dia (bpd) que venceriam no final do ano, estendendo-os até o final de 2025.

Além disso, os cortes voluntários de 2,2 milhões de bpd por oito membros do grupo, que originalmente venciam em junho, foram estendidos até setembro deste ano.

De acordo com Victor Arduin, analista de Energia e Macroeconomia da Hedgepoint, a restrição de oferta no mercado de petróleo tem sido o principal fundamento de alta em meio a um cenário econômico cada vez
mais avesso ao risco.

Os EUA ainda não iniciaram a flexibilização da sua política monetária restritiva, mantendo os juros altos por mais tempo, o que tem afetado o valor do dólar, assim como a demanda por commodities.

“Em virtude do amplo impacto nos preços das commodities energéticas, vamos aprofundar como as ações da OPEP+ deverão influenciar o mercado de petróleo nos próximos meses”, diz o analista.

Demanda modesta

Nos últimos meses, duas grandes forças se contrapuseram no mercado de energia global. De um lado, dados macroeconômicos com viés de baixa, principalmente relacionados à política monetária dos EUA, enquanto do outro, fundamentos altistas provenientes da menor oferta de petróleo e pressão sob os inventários mundiais.

“Esse foi o cenário no qual a OPEP+ optou por estender seus cortes na produção, que totalizam 5,86 milhões de barris por dia (bpd), equivalentes a aproximadamente 6% da demanda mundial. Essa medida se mostrou importante, pois o principal suporte ao mercado tem se originado do lado da oferta, uma vez que a demanda permanece bastante moderada. Sem a manutenção da política de cortes na produção, o mercado corria o risco de aprofundar as perdas, que em maio totalizaram US$ -4,94 (-6%) para o WTI e -6,24 (-7,10%) para o Brent”, pondera o analista.

E acrescenta que, nos próximos meses, será crucial observar o comprometimento dos países membros da OPEP+ com as cotas de produção estabelecidas.

O Iraque e o Cazaquistão apresentaram um plano de compensação por terem produzido acima do limite estabelecido (quase 1 milhão de bpd) no primeiro trimestre, enquanto a Rússia reconheceu recentemente ter
superado sua quota no mês de abril.

“Em grande parte, esses países dependem das receitas obtidas pela comercialização do petróleo, mas sua menor cooperação reduz a eficácia da estratégia em restringir a produção”, observa.

Balanço continua apertado

No momento, os fundamentos indicam que o balanço de petróleo continuará apertado, embora com menor intensidade. O mercado chegou a entrar em contango no final de 2023 (no mercado futuro, ocorre contango quando os preços dos contratos ficam acima do preço spot), mas desde então se mantém firme em backwardation.

“As baixas temperaturas nos EUA, que paralisaram diversas atividades de exploração de petróleo no começo do ano, removeram parte da produção prevista para 2024, enquanto as ações da OPEP+ contribuíram para restringir a oferta”, aponta o analista.

A Ásia vem demonstrando uma recuperação econômica robusta, resultando em um aumento na demanda por energia. Apesar de a China frustrar expectativas no consumo de petróleo, a Índia surpreendeu positivamente no último mês, contribuindo para o crescimento da demanda global, alcançando 27,81 milhões de bpd em maio, segundo dados da LSEG Oil Research.

“Há dois caminhos que podem se desdobrar à frente. O primeiro é uma melhora do ambiente macroeconômico, por conta do enfraquecimento da inflação nos EUA, abrindo espaço para corte de juros. Esse cenário poderá abrir espaço para ver um petróleo próximo dos US$ 90,00 antes do final do ano. Outra possibilidade é um ambiente ainda bastante avesso ao risco, resultando em uma lenta e gradual recuperação na demanda mundial, principalmente do setor de manufatura”, analisa.

“Por enquanto as ações da OPEP+ oferecem suporte ao mercado, mas sem aumento na demanda o mercado no ano que vem poderá cair abaixo dos US$ 70,00 por barril”, conclui.

Em resumo, diante das previsões divergentes da OPEP e da IEA para o crescimento da demanda por petróleo em 2024, fica evidente a incerteza que paira sobre o mercado. A OPEP projeta um aumento de 2,2 milhões de bpd, enquanto a IEA prevê um acréscimo mais modesto de 1,1 milhão de bpd.

A recente decisão da OPEP+ de manter cortes na produção de petróleo reforça a percepção de que o mercado enfrenta desafios consideráveis do lado da demanda. A incerteza em torno da inflação nos Estados Unidos, aliada a um cenário econômico global ainda instável, contribui para esse quadro.

Embora essa estratégia tenha sido fundamental para sustentar os preços do barril de petróleo, ela também resultou em uma perda significativa de participação de mercado para países produtores não membros da OPEP+, como Estados Unidos, Brasil, Guiana e Canadá.

Nas próximas semanas, o cenário macroeconômico deverá ganhar ainda mais atenção dos participantes do mercado de petróleo. A comunidade estará atenta às decisões do Fed, que podem iniciar uma flexibilização da política de juros ainda este ano, caso a inflação apresente sinais de desaceleração.

No entanto, caso o cenário inflacionário se mantenha persistente, 2025 poderá ser um ano desafiador para as commodities energéticas, que terão que navegar por um ambiente marcado por incertezas quanto aos juros, à possibilidade de uma recessão e menor demanda por petróleo.

Posts Relacionados