O site “Paranoá Energia” reproduz, com autorização, o texto assinado pelo professor e consultor Edvaldo Santana, originalmente disponibilizado em sua página no Linkedin:
“A intrigante receita-teto do leilão de baterias (BESS)
Esperei ontem por alguma reação ao valor da receita máxima do leilão de baterias. Nada foi dito. Contra ou a favor. Achei os números razoáveis, mas tenho ressalvas.
Faço parte do conjunto de técnicos que pensam o Bess como solução para vários temas do sistema elétrico. Também estou entre os que acham que, para aumentar a concorrência, o preço-teto pode ser maior que o valor de referência. Se o leilão tem bom desenho, a competição se encarrega do preço de equilíbrio.
O governo, porém, pode ter exagerado. A receita-teto para um dos produtos é R$ 1.760.000/MW/ano. Admita as seguintes premissas: Capex de R$ 5,5 milhões/MW; Opex de R$ 350 mil/MW/ano, que inclui o custo do carregamento; taxa de desconto de 10% a.a.; que as baterias são repostas a um custo equivalente a 30% do Capex; e admita um ciclo de 4h de carga e descarga.
Com esses dados, o payback seria de 3,9 anos, com uma TIR de 22%, que não é escandalosa, mas é mais que o dobro do padrão de projetos de infraestrutura.
Foi levada em conta ainda a eficiência de 85% e a disponibilidade de 95%. Assim, a energia útil seria 1.030 MWh ao ano, o que implica um custo médio de R$ 1.370/MWh, também não escandaloso.
Atualmente, quando o consumidor, na modalidade behind the meter, instala sua própria bateria para mitigar, p.ex, o preço do gerador diesel ou a tarifa de energia na hora da ponta, o custo fica entre R$ 800 e R$ 1.000/MWh. Pela receita-teto, o segmento de geração pagará no atacado muito mais do que o consumidor pagaria no varejo. Não faz sentido.
Além disso, com o poder de compra que possuem, bastaria que as empresas de geração se unissem, avaliassem a lista de exigências da EPE, ONS e da Aneel e fossem às compras. Não tenho dúvida, o custo final seria bem menor. Aliás, se os geradores irão pagar, não seria mais fácil eles contratarem a reserva de potência? O governo, no caso, não seria uma fonte de ineficiência?
Detalhe: mesmo que o Capex seja R$ 7.000.000/MW, ainda assim a TIR seria maior que 18%, incomum para investimentos em infraestrutura, e muito maior que o Wacc regulatório para quaisquer dos segmentos do SEB.
A receita-teto definida é, de fato, intrigante. E enigmático também é o silêncio geral. É bem verdade que um acordo é articulado no Congresso, onde há tratativas concretas para repassar pelo menos parte da conta para o consumidor. O silêncio, assim, não é enigmático, e, sim, preocupante.
Também não se nota questionamentos, de quem quer que seja, por uma atualização do déficit de potência. É certo que o déficit persiste. Mas a solar (que inclui a MMGD) tem gerado diariamente cerca de 49 GW, no período da manhã, que ajuda a manter mais água nos reservatórios e, com isso, eleva a oferta de potência. Os números foram atualizados? Quando? Ou os leilões estão no piloto automático?
No mais, resta torcer para que os deuses do mercado atuem para minimizar os efeitos dessas fontes de ineficiência.”