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China constrói mais energia renovável do que o resto do mundo junto

Da Redação, de Brasília (com apoio do Global Energy Monitor, GEM/Instituto ClimaInfo) —

A China tem hoje mais de 500 GW de usinas eólicas e solares em construção — mais do que o restante do mundo somado —, mas a expansão recorde das energias renováveis pode não ser suficiente para reduzir a dependência do carvão, afirma relatório do Monitor Global de Energia (Global Energy Monitor, GEM) divulgado nesta terça-feira (21).

Segundo o estudo, o país reúne 1.362 GW de projetos eólicos e solares em diferentes estágios de desenvolvimento (664 GW de solar e 698 GW de eólica). Mantido o ritmo atual, a China poderá atingir ainda neste ano a meta de seu Plano Quinquenal de fazer com que eólica e solar representem mais da metade da capacidade instalada prevista para 2030.

Boa parte dessa expansão está concentrada nas regiões desérticas do norte e noroeste do país, onde Pequim desenvolve seu programa de “megabases” de energia renovável.

Mas o relatório alerta que a infraestrutura de transmissão não acompanha esse crescimento, aumentando o risco de desperdício de geração renovável, o chamado curtailment, também observado no Brasil. Em províncias como Xinjiang, Qinghai e Gansu, entre 10% e 17% da geração solar disponível deixa de ser utilizada por limitações da rede elétrica. No caso da energia eólica, as perdas variam de 4% a 9%.

Além disso, a própria expansão das linhas de transmissão continua fortemente associada ao carvão. Embora as megabases de renováveis exijam 27 novas linhas de ultra-alta tensão, o próximo Plano Quinquenal prevê apenas dez. Hoje, apenas cerca de 20% da eletricidade transportada por essas linhas vem de fontes eólica e solar, enquanto o carvão responde por 42%.

Para contornar esses gargalos, a China passou a incentivar que parte da nova geração renovável seja consumida localmente, realocando polos industriais e criando novos. O país também está aumentando o investimento em sistemas de armazenamento, como baterias, e direcionando o excedente para projetos de hidrogênio verde.

Os chineses já canalizam mais de 10 GW de capacidade renovável à produção de hidrogênio — quase oito vezes o restante do mundo. E reguladores industriais têm incentivado cada vez mais a integração de fontes renováveis como condição para aprovar novos projetos de indústrias pesadas de alta emissão.

No entanto, a pesquisa do GEM conclui que essa estratégia cria uma perigosa brecha para o chamado lock-in do carvão” — isto é, a perpetuação da dependência do combustível fóssil. Um exemplo é a Baofeng Energy, maior produtora mundial de olefinas a partir de carvão.

Em 2025, a empresa colocou em operação, na Mongólia Interior, um projeto que combina um parque eólico e solar de 1.000 MW com a produção de hidrogênio verde para abastecer sua planta industrial. Embora a iniciativa reduza o consumo de carvão em cerca de 210 mil toneladas por ano, isso corresponde a apenas 2,2% do consumo anual total de carvão da instalação.

Segundo o relatório, o caso ilustra o risco de que a incorporação de energias renováveis se transforme apenas em um custo de conformidade regulatória, enquanto a dependência estrutural do carvão permanece praticamente inalterada.

“O objetivo das megabases é claro: acelerar a descarbonização em todo o país. Mas o próximo Plano Quinquenal ainda oferece muito espaço para que a China fortaleça sua liderança climática. No fim, o sucesso dessas megabases não será medido pelos gigawatts instalados, mas pelo volume de carvão que conseguirem efetivamente substituir.”

— Aiqun Yu, analista de pesquisa e estrategista sênior para o Leste Asiático do Global Energy

O Monitor Global de Energia (Global Energy Monitor, GEM) produz e disponibiliza informações para apoiar a transição global para a energia limpa. Ao acompanhar a evolução do setor energético mundial e desenvolver bases de dados, relatórios e ferramentas interativas, a organização busca ampliar a compreensão sobre o sistema energético e construir uma base aberta de informações sobre a energia no mundo. 

Os dados do GEM são amplamente utilizados como referência por instituições internacionais como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a Agência Internacional de Energia (IEA), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e o Banco Mundial. Também são utilizados por provedores.

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