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Comercializadora que entrou em “default” já estava bichada há muito tempo

Maurício Corrêa, de Brasília —

Um documento estratégico confidencial de 10 páginas, elaborado para credores de uma determinada comercializadora que entrou em “default”, revela “um quadro inequívoco”, mostrando que a empresa tem uma crise estrutural de operação e não apenas uma crise de liquidez motivada pelos programas computacionais de formação de preços da energia elétrica, ao contrário do que argumentam os controladores.  A margem operacional virou negativa há mais de 14 meses e o caixa entrou em terreno negativo ainda em 2026, segundo a avaliação feita por especialistas da área financeira com base nos números internos dessa comercializadora.

Os técnicos examinaram com lupa vários documentos financeiros internos. Nada escapou: demonstrações financeiras consolidadas auditadas por empresa de auditoria; fluxos de caixa mensais detalhados nos últimos três anos; balanços, balancetes, informações públicas. Enfim, uma radiografia completa, que resultou num relatório demolidor. Este site assumiu o compromisso com a fonte de não citar quem o produziu e nem o nome da comercializadora.

O mercado livre de energia, no Brasil, atravessa hoje provavelmente o pior momento de sua história de três décadas. Várias comercializadoras quebraram nos últimos dias e os nomes de muitas outras são citadas como passíveis de ter o mesmo destino nas próximas semanas.

A razão é simples: essas comercializadoras são amarradas umas às outras, devido às contrapartes contratuais. Assim, indo uma para o buraco é quase certo que automaticamente levará outra ou outras junto com ela. O modelo foi construído dessa forma. Sempre funcionou assim e nunca ninguém imaginou que isso um dia poderia ser o inferno na Terra.

A empresa cujos números foram examinados pelos investigadores já vinha apresentando margem operacional negativa estrutural desde meados de 2024, com prejuízo bimestral de R$ 32,9 milhões em janeiro e fevereiro deste ano. Além disso, seus números indicavam projeção de caixa negativo de R$ 114 milhões ao final de 2026, além de endividamento bancário de R$ 106,5 milhões, partindo de uma estrutura historicamente sem dívida.

Esmiuçando os números dessa comercializadora, os analistas constataram que houve distribuições aos sócios de R$ 112,7 milhões nos 26 meses anteriores ao ajuizamento, incluindo R$ 18,2 milhões em fevereiro de 2026, apenas um mês antes do pedido de tutela cautelar. Esses números chamaram muito a atenção dos investigadores.

“Os números internos mostram que a operação está estruturalmente perdedora há mais de 14 meses consecutivos. Para um credor, a pergunta relevante não é o tamanho nominal do saldo, mas a capacidade real de geração de caixa para honrar os contratos pelos preços originalmente pactuados num cenário em que o mercado spot está significativamente mais alto”, lembram os analistas.

Segundo o documento obtido pelo site “Paranoá Energia”, “a trajetória do fluxo de caixa anual mostra a velocidade do colapso…A leitura é direta. Em 2024, a operação ainda gerava margem positiva de R$ 38 milhões. Em 2025, virou negativa em R$ 39 milhões — uma piora de R$ 77 milhões em apenas 12 meses. A projeção para 2026 aponta para margem negativa de R$ 128 milhões”.

Os investigadores descobriram que a comercializadora em questão vinha comprando energia mais cara do que pelo preço que vendia, de modo sistemático, há mais de 14 meses. “Para uma comercializadora, isso é o equivalente a uma corretora operando vendida em mercado em alta: cada mês que passa, a perda se amplia”, assinala o documento. Nesse contexto, os meses mais graves de 2025 foram abril (–R$ 15,3 mi), maio (–R$ 17,3 mi) e agosto (–R$ 22,8 mi). A liquidação CCEE também escalou: saiu de R$ 22 milhões negativos em 2024 para R$ 68,6 milhões em 2025 — só abril de 2026 projeta R$ 44,9 milhões de liquidação negativa.

A explicação técnica que a empresa apresentou ao juízo é o ‘descasamento entre as curvas de carga contratadas e as curvas de geração’. Em linguagem direta: a comercializadora vendeu energia para ser entregue em determinados horários (curvas de carga), mas comprou geração com perfil diferente. “Com a explosão da geração solar e a maior volatilidade horária do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), o desencontro entre o que precisa entregar e o que tem disponível se transforma em prejuízo recorrente”, acrescentam os analistas.

Eles assinalaram que o balancete contábil da empresa mostra um patrimônio líquido aparentemente sólido de R$ 523,7 milhões, mas com sinais preocupantes na composição.

Algo que despertou muito a atenção dos especialistas foram as distribuições de valores aos sócios da empresa, no meio da crise: R$ 112,7 milhões. Diz o documento que em março de 2024 saíram R$ 36,3 milhões de dividendos, quando o spread já dava sinais de fraqueza e em junho de 2024 mais R$ 24,6 milhões. Em abril do ano passado, foram mais mais R$ 15,5 milhões e no mês seguinte outros R$ 16,6 milhões — meses de spread fortemente negativo.

“Mais grave ainda”, segundo a avaliação dos especialistas: em fevereiro último, a um mês do ajuizamento, saíram R$ 18,2 milhões em dividendos, com a empresa já apresentando prejuízo bimestral de R$ 32,9 milhões.

Na conclusão, eles apontam que a empresa possui um passivo contratual de magnitude maior do que seu patrimônio líquido aparente, geração de caixa estruturalmente negativa, e está consumindo rapidamente o que resta de liquidez.

“Sem uma renegociação substancial dos contratos — provavelmente envolvendo deságio, alongamento, e possivelmente conversão de parte do crédito em participação societária — a continuidade operacional torna-se questionável”, diz o documento confidencial. Ou seja, pode-se dizer que a empresa em questão não tem muito futuro.

Como recomendações ao credor, os analistas indicam as decisões econômicas que poderão ser tomadas. São três caminhos:

  1. Aceitar o plano da comercializadora, provavelmente com deságio significativo e alongamento de prazo, na expectativa de receber algo ao longo de muitos anos;
  2. Rejeitar o plano e forçar a falência da empresa, com expectativa de recuperação dos ativos (um tipo de liquidação historicamente baixa em comercializadoras, cujo principal ativo é o portfólio de contratos);
  3. negociar bilateralmente uma saída específica para o contrato, fora do plano coletivo, o que pode ser viável se o credor for grande o suficiente para ter poder de barganha. A escolha depende da materialidade da exposição, do apetite a risco e do horizonte temporal do credor.

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