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China prepara próxima fase da transição energética com cautela no uso do petróleo e carvão

Da Redação, de Brasília (com apoio do Instituto ClimaInfo) —

O rascunho do 15º Plano Quinquenal da China (2026–2030) confirma a estratégia que vem moldando a política energética do país: expansão acelerada de energia limpa e tecnologias verdes, combinada com cautela na redução de combustíveis fósseis e ausência de limites absolutos para emissões no curto prazo. Esse equilíbrio reflete o esforço de Pequim para acelerar a transição energética ao mesmo tempo em que reduz vulnerabilidades estratégicas em um ambiente geopolítico mais tenso. 

Abaixo estão algumas das principais atualizações do Relatório de Trabalho do Governo de 2026 e do 15º Plano Quinquenal da China, que está sendo finalizado e divulgado nesta quarta-feira, 11 de março, após sua aprovação formal na sessão de encerramento da Assembleia Popular Nacional (NPC).

Pedalada chinesa?

A China pretende reduzir as emissões de CO₂ por unidade de PIB em 17% até o fim desta década. A meta é ligeiramente menos ambiciosa do que a do plano anterior. O 14º Plano Quinquenal (2021–2025) previa uma redução de 18% na intensidade de carbono entre 2020 e 2025.

Análises independentes sugerem que o país ficou bem aquém desse objetivo — cerca de 12% de redução. A razão seria a expansão de setores de alto consumo energético e difíceis de descarbonizar. Mas os dados oficiais divulgados junto com o novo plano indicam uma queda de 17,7%, ou seja, praticamente dentro da meta.

A diferença decorre de uma revisão metodológica no cálculo da intensidade de carbono. A nova metodologia amplia o tipo de emissões consideradas no indicador — incluindo emissões de processos industriais que antes não eram plenamente contabilizadas — o que altera a base de cálculo e permite apresentar uma redução mais próxima da meta original.

Na prática, trata-se de uma mudança contábil que melhora o desempenho do indicador, sem necessariamente refletir a mesma magnitude de redução nas emissões reais da economia — algo que analistas têm descrito como uma espécie de “pedalada” climática.

O novo plano também consolida uma mudança na forma como o desempenho climático é medido. Nos planos anteriores, o principal indicador era a intensidade energética (consumo de energia por unidade de PIB). Agora, o foco passa para a intensidade de carbono — emissões por unidade de PIB — o que tende a favorecer a expansão de renováveis e a eletrificação da economia. Analistas consideram a mudança um avanço conceitual, embora sua eficácia dependa de como será aplicada e monitorada nas políticas provinciais.

Reorganização do sistema elétrico

O plano reafirma a meta de elevar a participação de fontes não fósseis para 25% do consumo total de energia até 2030, acima dos cerca de 21,7% registrados em 2025. E confirma que a expansão de energia limpa continuará sendo um pilar da estratégia energética chinesa.

Mais do que simplesmente ampliar a capacidade instalada, o plano sugere uma reorganização do sistema elétrico nacional para acomodar a rápida expansão de renováveis, um desafio que também aparece em outros países com grande potencial de geração, como o Brasil: evitar que eletricidade limpa fique “encalhada” (curtailment) por falta de infraestrutura para transportá-la até os centros de consumo.

Entre as metas e projetos mencionados estão:

  • construção de grandes bases de energia eólica e solar, especialmente em regiões desérticas do norte e oeste da China;
  • expansão da capacidade de energia eólica offshore para mais de 100 gigawatts até 2030;
  • desenvolvimento de complexos integrados de hidrelétrica, eólica e solar no sudoeste do país;
  • construção de corredores de transmissão elétrica de ultra-alta tensão capazes de transferir cerca de 420 GW de eletricidade limpa entre províncias.

Essa infraestrutura pode viabilizar o transporte de energia renovável gerada no oeste da China — onde os recursos naturais são mais abundantes — para os centros industriais e urbanos do leste.

O uso do termo “energia não fóssil” no plano, e não apenas renováveis, também reflete o fato de que a meta inclui outras fontes de baixa emissão, como a energia nuclear, que continua sendo expandida no país. Na prática, porém, o crescimento mais rápido da capacidade instalada nas últimas décadas vem das fontes renováveis, especialmente solar e eólica.

Indústria de carbono zero

A China pretende estabelecer 100 parques industriais de “carbono zero”, combinando eletrificação, energia renovável, reciclagem de materiais e gestão digital de energia. Os primeiros 52 parques já tinham sido antecipados em dezembro e 2025.

Nos últimos anos, a economia de energia limpa se tornou uma parte significativa do crescimento econômico chinês, com tecnologias do setor de renováveis (solar, eólica, veículos elétricos e baterias) respondendo por mais de um terço do crescimento do PIB do país em 2025.

O plano vincula a transição energética à continuidade dessa estratégia industrial. Em várias regiões do país, “fábricas verdes” e parques industriais de carbono zero têm sido utilizados como instrumentos para ampliar a demanda por eletricidade limpa, ajudando governos locais a cumprir metas de expansão de energia não fóssil.

Entre os setores destacados como motores dessa nova fase industrial estão:

  • veículos elétricos inteligentes
  • novas tecnologias solares
  • hidrogênio
  • armazenamento de energia
  • energia nuclear avançada
  • minerais críticos e terras raras

Essa estratégia reflete uma característica central da política climática chinesa: a redução de emissões é cada vez mais impulsionada pela expansão de setores industriais de tecnologia limpa, e não apenas por metas administrativas de corte de carbono.

Ao mesmo tempo, Pequim busca consolidar esses setores como vantagens competitivas globais, posicionando suas tecnologias de energia limpa como bens industriais estratégicos e ampliando sua presença nas cadeias globais da transição energética.

Fósseis “limpos”

Apesar da expansão acelerada de energias limpas, o plano deixa claro que preocupações com segurança energética continuam moldando a política energética chinesa — especialmente em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas sobre grandes fornecedores de combustíveis fósseis.

O documento:

  • reafirma o princípio de uso “limpo e eficiente” de combustíveis fósseis
  • não define uma data para o pico do consumo de carvão ou petróleo
  • prevê modernização de usinas a carvão, incluindo projetos de retrofit e co-combustão com biomassa ou amônia
  • incentiva a expansão de reservas estratégicas de petróleo, gás e carvão
  • mantém investimentos em tecnologias de conversão de carvão em combustíveis líquidos ou gasosos.

Autoridades chinesas frequentemente descrevem o carvão como uma espécie de “lastro” (ballast stone) do sistema energético, necessário para garantir estabilidade enquanto as renováveis se expandem — uma formulação que reflete mais preocupações com volatilidade geopolítica e segurança de abastecimento do que qualquer evidência de que combustíveis fósseis sejam, de fato, uma solução estável ou eficiente.

Esse contexto ajuda a explicar também uma escolha importante do plano: a ausência de um limite absoluto para as emissões de CO₂. Apesar de discussões recentes sobre a adoção de um sistema de “duplo controle de carbono” — combinando metas de intensidade com um teto para emissões totais — o documento mantém apenas metas de intensidade de carbono.

Na prática, isso significa que as emissões totais podem continuar crescendo enquanto a economia se expande, desde que o volume de CO₂ por unidade de PIB diminua.

Diplomacia climática 

O documento afirma que a China pretende participar ativamente e “liderar” a governança climática global.

Essa estratégia inclui:

  • expansão da cooperação climática sul-sul
  • integração de projetos de energia limpa na Iniciativa Cinturão e Rota
  • exportação de tecnologias de energia limpa como “bens públicos globais”.

O que observar nos próximos anos

Como o plano é um documento estratégico, muitos detalhes serão definidos em planos setoriais específicos para eletricidade, renováveis, carvão e mercado de carbono.

Entre os pontos que analistas acompanharão estão:

  • se a China adotará futuramente um limite absoluto de emissões
  • a velocidade de expansão da capacidade renovável
  • o papel do carvão no sistema elétrico durante a transição
  • o desempenho das emissões antes da meta de pico de carbono até 2030.

O novo plano sugere que a China continuará sendo, ao mesmo tempo, o maior investidor mundial em energia limpa e o maior consumidor global de combustíveis fósseis — uma contradição que reflete tanto a escala de sua economia quanto o ambiente geopolítico cada vez mais instável.