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Principal problema das comercializadoras é a falta de credibilidade para operar

O idoso editor do site “Paranoá Energia” tem conversado com algumas lideranças entre os agentes de comercialização e entende que o segmento ainda não compreendeu a exata dimensão da crise atual que afeta as comercializadoras de energia. Talvez falte perspectiva para entender a gravidade da situação.

Essas empresas tem se limitado a reclamar das exigências de garantias feitas pelos geradores ou então de iniciativas das autoridades do setor elétrico no campo regulatório que eventualmente as desfavorecem. Para este site, trata-se de uma avaliação que não é equivocada, mas é extremamente pobre e limitada, pois não vai ao foco do problema principal que atinge os comercializadores.

Esse problema tem nome e sobrenome: falta credibilidade às comercializadoras, diante da quebradeira generalizada que afeta o mercado elétrico. Ao que parece, tem mais gente esperando para engrossar a fila.

Vale a pena acionar a memória e voltar à crise bancária internacional de 2008, quando uma situação descomunal quase levou o planeta à ruína econômica.

Bancos simplesmente não podem sofrer corrida ao caixa. Numa ação desse tipo, nenhum banco sobrevive. Então, não podem sofrer corridas ao caixa, pois, caso contrário, vão quebrar. Se o correntista chega ao caixa do seu banco e não tem dinheiro, esquece. A credibilidade daquela instituição vai pro sal. Ou é comprada por uma outra instituição ou então é liquidada pelo Banco Central. É assim que funciona.

Essa situação costuma ser tão dramática que, na crise de 2008, quando vários bancos de primeira linha viraram farelo, surgiu a expressão “Too Big to Fail” para indicar que algumas instituições financeiras eram grandes demais para quebrar e precisavam ser amparadas ao extremo pelo Banco Central. Isso aconteceu de verdade naquela crise. Tem bancão que hoje está aí, respirando, mas engoliu o liberalismo e o orgulho e recebeu forte ajuda do Banco Central para poder continuar respirando. Nada como uma mãozinha do Estado para ganhar uma sobrevida. Aliás, esse é um dos papéis do Banco Central, para evitar a crise sistêmica.

As comercializadoras brasileiras são muito menores e aparentemente nenhuma delas é grande demais para ser protegida e não quebrar. Entretanto, têm tamanho suficiente para perder a credibilidade. É o que está acontecendo com esses agentes, que também não contam com uma espécie de Banco Central para fazer a gestão da crise. Nem a Aneel e nem a CCEE estão preparadas para isso.

Este editor tem vários amigos em muitas comercializadoras e não fica feliz em dizer isto, mas o fato é que vários executivos do ML não perceberam até agora que não adianta só reclamar da regulação ou dessa ou daquela ação do Governo. O que conta é que essas empresas perderam a credibilidade e não têm mais condições para operar.

Na visão deste editor, só resta uma solução, que seria uma espécie de rearranjo entre os agentes de comercialização, com as empresas mais capitalizadas assumindo outras companhias. As demais iriam pro sal. É triste, mas não tem muita alternativa. O mercado ficaria mais concentrado, não há dúvidas. Ou será que alguém tem a ilusão que essas empresas em estado pré-falimentar ainda têm condições de voltar a operar?

Quanto ao futuro do mercado livre (inclusive vale perguntar se esse mercado tem algum futuro), é difícil dizer o que vem pela frente. Tem muita gente desesperada (e é normal que estejam nessa situação), pois essas pessoas passaram 30 anos construindo empresas e um mercado relativamente organizado e de repente tudo parece desmoronar como um castelo de cartas.

Não tem muito mistério. Perda de credibilidade é a situação mais impactante e dramática que pode afetar um mercado. Vale para bancos, para o câmbio e também para a energia elétrica no Brasil.

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