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Mercado livre tem que mudar. Não dá para ficar do jeito que está

Numa outra encarnação, quando este idoso editor era jovem e vagava pelo planeta em busca de aventuras, entrou num cassino e, numa mesa de roleta, apostou 100 dólares. Um cara de meia idade que estava ao seu lado, com muitas fichas de 10 mil dólares nas mãos, deve ter apostado algo em torno de 100 mil dólares.

“Façam o jogo, senhores”, disse o crupiê várias vezes, até que falou mais alto e disse a famosa frase que deixa todo apostador sem respiração: “Jogo feito”. Resultado, roleta rodou e foi um fracasso. O futuro editor perdeu 100 dólares e o outro apostador perdeu 100 mil dólares. Este editor, que sempre foi um lascado, ficou bronqueado. O outro apostador passou a mão num copo de uísque e, tranquilão, foi para outra roleta.

Esta historinha está sendo contada por uma única razão. Em excelente matéria, o site “Infra” revelou que uma comercializadora que acaba de abrir o bico tem uma dívida acumulada com credores equivalente a 1 bilhão de dólares. Isso mesmo, o leitor não se equivocou: 1 bi de dó-la-res. O valor da empresa não chega nem perto disso, o que significa que a tal comercializadora apostou no mercado livre muito mais do que podia apostar.

O mercado livre de energia elétrica no Brasil precisa mudar. Aliás, se quiser sobreviver tem necessariamente que mudar. Não dá para a cada 15 dias uma comercializadora espetar uma dívida gigantesca em outros agentes do mercado, que vai ficar girando por aí, pois os inadimplentes não têm grana para cobrir as suas apostas.

Ao contrário de um cassino autêntico, onde você só pode apostar se antes comprar fichas em valor correspondente ao que pretende apostar, o mercado livre brasileiro é um cassino ao contrário. As empresas apostam sem lastro, perdem — como agora — e o mico fica na mão das contrapartes ou geradores.

Muita gente sabe que este editor trabalhou durante mais de 10 anos no mercado livre. Sempre foi seu fiel apoiador. Mas o apoio incondicional chegou ao fim. Cassino é cassino, mercado livre é mercado livre. O ML não pode ser usado como se comprar e vender energia elétrica fosse uma atividade de cassino ou uma espécie de bets.

As regras do jogo precisam ser rapidamente alteradas, de modo que só possam participar de operações no mercado livre quem tem condições de aportar, previamente, um determinado valor. E a comercializadora só poderá operar até aquele valor. Está na hora de acabar com a bagunça e apenas deixar o passivo para os outros. 

Alguém poderá dizer: os pequenos comercializadores vão desaparecer e ficarão só os grandes. Infelizmente, é isso mesmo que vai acontecer. Quem não tem condições de chegar na roleta e apostar 100 dólares, fica nos 100 dólares. Se não tiver condições de aportar garantias para apostar mais alto, problema de cada um. Muda de ramo.

O que não dá mais é ficar passando a mão na cabeça de comercializadores que operam sem calibrar corretamente as suas operações e depois jogam o prejú para o mercado. Afinal, as condições do mercado são idênticas para todos e nem todos estão quebrando. O que significa que tem gente que gosta de se aventurar além da linha vermelha. Em algum momento, a fatura chega.

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