O site “Paranoá Energia” disponibiliza aqui, devidamente autorizado, o texto de autoria do professor e consultor Edvaldo Santana, publicado originalmente em sua página no Linkedin. O texto tem o seguinte teor:
O Brasil é mesmo para profissionais. Isto é, para quem conhece a arte de trapacear. O governo, depois de um LRCAP que contratou 19 GW, arrumou um espaço para os bem-vindos sistemas de armazenamento em baterias (BESS).Mas há um tempão os lobbies discutem quem paga a conta.
Ora! O leilão, até prova em contrário, é para resolver os problemas deixados pelo déficit de potência. Quem provocou tal déficit? A resposta é objetiva: o déficit de potência decorre de usinas que venderam MWh sem ter o MW associado. Quem são essas usinas? Seguramente, as eólicas e solares, mas não só. A todos esses tipos de ativos deveriam ser alocados os custos do leilão – princípio da causalidade.
A luta dos lobbies, como sempre, é para empurrar a conta para os consumidores, que pagariam duas vezes: quando compram energia e potência nos leilões do governo e, agora, por um encargo. E a notícia não é boa. É enorme a chance de os lobbies terem sucesso.
Do outro lado, dada a dinâmica do sistema elétrico, a necessidade de potência vem diminuindo, ainda que a taxas bem pequenas. Ex.: faz tempo que os reservatórios não chegam a níveis tão elevados (mais de 60%) em meados de outubro, e seguirá assim até o fim do período seco. Excelente notícia.
Mais: o excesso de MMGD, que tanto desequilibrou o sistema e aumentou a conta de luz para os mais pobres, mostra um lado bem positivo, que é a preservação de mais água nos reservatórios. Desde setembro, são mais de 40 GW de solar entre 9 horas e 13h30m, e todos os dias.
Até o curtailment, que é estrutural, contribui positivamente. Como é efetivamente menor a oferta de eólica e solar centralizada, que possuem baixo fator de capacidade, o fator de carga médio fica maior, o que também indica menor necessidade de potência adicional.
Assim, se a partir de dezembro chover o equivalente ao ciclo 2025-2026, que não foi lá essas coisas, os eventuais déficits, no próximo período seco, seriam equacionados pelos LRCAPs anteriores e, veja só, pelas hidrelétricas de sempre – que fazem o serviço quase de graça.
Tomara que a rapaziada discuta o rateio dos custos do BESS por mais uns 12 meses. O debate, sem sentido por sinal, é ótimo. A racionalidade econômica agradece.