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Edvaldo: ONS agora só serve para cortar energia e não para operar o sistema

O professor e consultor Edvaldo Santana disponibilizou mais um texto em sua página no Linkedin, reproduzido aqui no site “Paranoá Energia” com a autorização do autor, no qual reflete sobre o papel atual do ONS. Vale a pena ler o que pensa o professor Edvaldo.

Ele é um especialista que dispensa o jargão do SEB e traduz em palavras simples e raciocínio lógico os significados de determinadas iniciativas tomadas pelas autoridades do setor.

Não são palavras do autor deste texto, mas, no entendimento do editor do site, o setor elétrico brasileiro, hoje, se pauta por um grotesco erro de planejamento por parte das autoridades (MME, EPE e talvez o ONS) e ninguém se atreve a dizer isto claramente. Todo mundo na área empresarial morre de medo de uma possível retaliação por parte das inteligentes autoridades que conduzem o SEB. Então, fica todo mundo na moita. Os gênios não admitem contestação. Só eles sabem.

Com o corte de geração, o famoso “curtailment”, para evitar o colapso do sistema, o Brasil desperdiça volumes extraordinários de energia elétrica, nos quais foram investidos bilhões de reais e o País simplesmente joga toda essa riqueza fora.

As brilhantes autoridades brasileiras simplesmente se esqueceram que era bonito, sim, gerar mais energia, mas era fundamental, sim, construir linhas de transmissão para que a nova energia fosse escoada. Os gênios jogaram energia na rede de qualquer jeito e hoje o Brasil é um dos campeões mundiais do desperdício.

Uma eleição geral deveria ser o momento para se discutir uma irresponsabilidade desse tipo. Mas lamentavelmente o assunto não rende votos e os políticos não estão interessados no tema.

O texto de responsabilidade do professor Edvaldo Santana é o seguinte:

“Com a GD, operar o sistema virou afiar o facão para cortar 100% da eólica e da solar, o que implica desperdiçar a rede de transmissão.

No Brasil, a GD, durante a semana que acabou ontem, tem batido um recorde depois do outro. Uma consequência disso é que o ONS se transformou em gestor dos cortes e, no fim de semana, no maior cortador do mundo. Duvido que alguém tenha aprendido coisa semelhante em alguma escola de engenharia .

Mas é isso. E a mudança não é sutil. Operar o sistema deixou de ser coordenar as diferentes fontes de geração que deveriam ser utilizadas para atender à demanda ao menor custo. Agora, significa escolher as fontes de geração que serão cortadas para manter a segurança e a confiabilidade.

Veja como isso acontece. Hoje, dia 23, às 6 horas, a carga era 65 GW. As eólicas produziam 21 GW, contra 33 GW das UHEs, 8 GW das UTEs e 2 GW da nuclear. Às 10 horas, com carga de 67 GW, a eólica gerava apenas 2 GW e a UHEs 24 GW. A solar, veja bem, vinha com 31 GW, Quase tudo da GD.

Às 11h30m, mesmo com a carga de 71 GW, excelente para um domingo, a eólica tinha geração de 1 GW. Ou seja, a eólica foi cortada em 100%. A solar, no mesmo horário, produzia 35 GW, 100% vindo da GD. Assim, a solar centralizada também foi cortada em 100%.

E veja que resultado absurdo: o Nordeste, às 11h40m, exportava 0,342 GW, enquanto o Sudeste/Centro-Oeste importava 1,5 GW. Isto mesmo, 1,5 GW. O Sul importava zero, isto mesmo, zero, enquanto o Norte importava 1,2 GW.

E vem daí o resultado mais relevante da burrice generalizada que tomou conta do SEB depois de 2020. Nos dias e horários que o sistema produz os maiores excedentes de energia, as interligações operam em vazio.

Esse tipo de estupidez você não aprende na escola de engenharia, e sim na escola em que os interesses políticos e particulares valem mais que a oferta de energia ao menor custo. Vale mais que os interesses da sociedade como um todo”.