Maurício Corrêa, de Brasília —
Na reunião da diretoria colegiada da Aneel, nesta terça-feira, dia 28 de julho, foi aprovada a proposta de abertura de consulta pública de um edital para o leilão de reserva de capacidade destinado à contratação de um sistema de armazenamento de energia em baterias.
Com sinceridade e humildade, o diretor-geral da agência reguladora, Sandoval Feitosa, reconheceu que falta qualificação técnica em todo o sistema elétrico brasileiro, inclusive na própria Aneel, para normatizar uma questão que é totalmente nova.
A proposta já está rolando dentro da Aneel há vários meses. O leilão está marcado para dezembro deste ano. Segundo reconheceu o diretor Willamy Frota na mesma reunião, o armazenamento equilibra o setor elétrico brasileiro e contribui para a operação das fontes intermitentes. Mas a agência está meio perdida em filigranas burocráticas. Tem dificuldade para avançar no tema e vai a passos de tartaruga.
Embora talvez alguns não possam enxergar uma ligação direta entre os dois assuntos, o tema inédito do armazenamento tem tudo a ver com uma questão na qual o site “Paranoá Energia” tem batido há muitos meses, que são as viagens de diretores e servidores da Aneel ao exterior.
Essas viagens não têm qualquer critério. O servidor ou diretor vai para o Paraguai, o Quênia, Singapura, Dinamarca, Alemanha ou Itália, por exemplo. Na maior parte das vezes, vai participar de eventos caça-níqueis sem qualquer importância, transformando a oportunidade daquilo que deveria ser uma viagem de aprendizado técnico em viagem de lazer. Em outras palavras, turismo pago com dinheiro público, quase sempre com ônus total por conta da agência reguladora. Ao final, os servidores produzem relatórios chinfrins, que são arquivados imediatamente e ninguém lê. Dinheiro dos contribuintes jogado literalmente pela janela.
Este idoso editor está fazendo esta longa introdução, para entrar na questão principal: se tivesse critérios técnicos para as viagens de seus servidores e diretores, esta seria uma excelente oportunidade para a Aneel gastar o bendito dinheiro público, enviando o seu pessoal para a China, Estados Unidos, Austrália ou Alemanha, que são os países que mundialmente lideram as pesquisas e implantação dos sistemas de armazenamento de energia. Até este idoso editor, que é um velho ranzinza e não tem muito humor, bateria palmas.
Já que o Brasil conhece pouco a área de armazenamento e a Aneel está sendo obrigada a tomar decisões sobre algo que não conhece em profundidade, seria mais do que razoável soltar o seu pessoal pelo mundo; 10/15 dias em cada um desses quatro países, para aprender tudo sobre o funcionamento e operação desses sistemas, que são inéditos para o setor elétrico brasileiro. É o método chinês.
Há mais de 20 anos, fazendo uma reportagem sobre a fabricação de instrumentos musicais de cordas na cidade italiana de Cremona, para um grande jornal brasileiro, este editor (então apenas um jornalista que entrava na meia idade) percebeu a enorme quantidade de estudantes chineses nos vários luthiers que visitava. Em uma das oficinas, ao perguntar porque havia tantos chineses, recebeu uma resposta que vale para a Aneel: “Eles vieram aqui para aprender como se faz não apenas violinos, mas instrumentos de corda em geral. Daqui uns anos, a China estará fabricando os melhores instrumentos de corda do mundo”. Não deu outra coisa.
A China, por exemplo, está hoje em primeiro lugar, com aproximadamente 50% da capacidade global de armazenamento de energia em baterias. Os Estados Unidos se encontram em segundo lugar. Depois vêm a Austrália e Alemanha. O Brasil ainda está engatinhando, totalmente atrasado na utilização dessa nova tecnologia em larga escala. Nem regulamentação tem ainda e só agora, de uma forma meio capenga, a Aneel pensa no assunto.
Então, senhores diretores da Aneel, quando o site “Paranoá Energia” desce a borracha em vocês por causa da enorme quantidade de viagens inúteis, é por coisas assim. Aprender como se usa um sistema de baterias é a verdadeira prioridade técnica da Aneel. Não é mandar os seus servidores, arcando com todas as despesas, para participar de turismo pelo mundo.