Da Redação, de Brasília (com apoio do Projeto Memória da Eletricidade/AE) —
Enquanto as cidades se iluminavam e aceleravam a industrialização, o campo seguia outro compasso. À noite, a claridade vinha das lamparinas, e o progresso parecia algo distante, limitado pelas estradas de terra e pela falta de infraestrutura. A eletrificação rural no Brasil enfrentou, desde o início, obstáculos econômicos, geográficos e sociais.
O marco inicial ocorreu em 1923, em Batatais, no interior de São Paulo, quando o fazendeiro João Nogueira de Carvalho fez o primeiro pedido de instalação de energia elétrica para poder operar uma máquina agrícola. Experiências pioneiras como a de Batatais se mostraram pouco lucrativas para as empresas concessionárias, devido ao baixo consumo de energia elétrica e à alta dispersão da população rural.
Dado o pequeno interesse da iniciativa privada pela implantação de sistemas elétricos no meio rural, algumas comunidades começaram a formar cooperativas de eletrificação a partir dos anos 1940, com o apoio de governos locais. Mais tarde esse modelo de eletrificação rural veio a ganhar respaldo federal com o Estatuto da Terra, de 1964, e ajudou a fomentar a ideia de políticas públicas para garantir energia no campo.
A entrada do Estado e os avanços lentos
Foi só a partir da década de 1940 que o debate sobre eletrificação rural entrou na agenda nacional. A presença do Estado no setor elétrico começou a ganhar forma com a criação de empresas como a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) e, mais tarde, a Eletrobras – hoje A XIA Energia, que promoveram amplo programa de investimentos em geração e transmissão de energia no país.
Mesmo assim, os avanços eram lentos e desiguais em comparação aos centros urbanos e industriais. O censo de 1950 mostrava que menos de 4% dos domicílios rurais dispunham de eletricidade. Já nos anos 1960, o contraste entre cidade e campo permanecia evidente: dos 13,5 milhões de domicílios existentes no país, apenas 597 mil residências rurais contavam com iluminação elétrica, apesar de a população rural ainda representar 55% dos brasileiros, uma estimativa de 71 milhões de habitantes.
Programas nacionais e modernização do campo
Uma esperança surge a partir dos anos 1970 com a criação dos Programas Nacionais de Eletrificação Rural (PNER) e o fortalecimento de instituições como a Eletrobras. Investimento em novas linhas de transmissão e a expansão da geração hidrelétrica permitiram levar energia a áreas mais afastadas. Isto impulsionou a modernização ao permitir o uso de novos equipamentos e da mecanização agrícola. A vida cotidiana do campo foi transformada.
Entre os anos 1990 e o início dos anos 2000, iniciativas como o Programa Luz no Campo transformaram o meio rural, mas foi a partir da lei nº 10.438, de 2002, que veio a virada da eletrificação rural. A regulamentação consagrava a universalização do serviço como direito do cidadão e criou mecanismos de financiamento, como a Conta de Desenvolvimento Energético. Então, em 2003, o lançamento do Programa Luz para Todos (LPT) veio como um divisor de águas, colocando a inclusão social como ponto focal da política energética.
Sob essa nova lógica, o processo de erradicar a exclusão elétrica vinha para levar energia gratuita às famílias rurais, comunidades indígenas, quilombolas, etc. Foi preciso alinhar governo e empresas do setor elétrico para que o programa pudesse incluir regiões antes consideradas inviáveis de serem acessadas por meio da extensão de redes e soluções descentralizadas. Os resultados foram expressivos com milhões de domicílios atendidos, melhoria da renda per capita, maior fortalecimento da produção agrícola, avanços na área da educação, saúde e qualidade de vida no campo.
O cenário atual da eletrificação rural no Brasil
Os dados mais recentes refletem esse esforço histórico. O Censo de 2022 revelou que 99,8% dos domicílios brasileiros possuem acesso à energia elétrica, um patamar próximo da universalização plena. Mais do que postes e fios, a eletrificação levou dignidade e esperança ao campo, reduzindo a distância entre o Brasil urbano e o Brasil rural.
Para entender mais sobre o tema, acesse o livro ” Eletrificação rural no Brasil – Uma visão histórica “, produzido pela Memória da Eletricidade e disponível em seu acervo.
