Da Redação, de Brasília (com apoio do Instituto ClimaInfo) —
O El Niño de 2026 já atingiu uma intensidade excepcional: 2,1°C no índice Roni, a métrica atualmente usada pela NOAA, que já desconta o efeito do aquecimento global sobre os oceanos tropicais. Historicamente, o El Niño costuma atingir sua intensidade máxima entre outubro e fevereiro, com maior frequência em novembro e dezembro.
Essa intensidade tão pronunciada já em setembro coloca o evento em trajetória de recordes. Na atualização de 21 de setembro, todos os 22 modelos acompanhados pelo International Research Institute for Climate and Society (IRI), da Universidade de Columbia, nos EUA, apontam para um fortalecimento adicional nos próximos meses.
A NOAA também prevê a intensificação até o final do ano. Entre outubro e dezembro, o órgão meteorológico dos Estados Unidos estima uma chance de 75% de que o evento supere a intensidade de qualquer El Niño registrado desde 1950. Ainda há incerteza sobre até onde essa intensificação pode ir. Modelos climáticos nunca foram testados diante de um El Niño dessa magnitude.
Uma análise do Carbon Brief desta semana mostra o quanto o evento está adiantado em relação aos grandes El Niños anteriores. Usando o índice ONI para calcular diariamente a anomalia de temperatura na região Niño 3.4, o evento atingiu 3,07°C em 19 de setembro, praticamente empatando com o recorde diário de 3,08°C, registrado durante o Super El Niño de 2015-16. A diferença é que aquele recorde só foi alcançado em 18 de novembro de 2015, cerca de dois meses depois. No início de setembro de 1997 e de 2015, as anomalias estavam em torno de 1,9°C.
O indicador Roni também registra para o El Niño de 2026 a maior intensidade já observada nesta época do ano e esta continua se fortalecendo. Se as projeções se confirmarem nos próximos meses, o El Niño de 2026-27 alcançará uma intensidade sem precedentes no registro moderno.
El Niño sobe mais um degrau e pode se tornar o mais forte já registrado: o Pacífico Equatorial chegou a +2,1°C acima da média na semana de 16 de setembro. O calor se concentra perto da América do Sul: na costa do Equador e do Peru, a água está 3,9°C mais quente do que o normal. A NOAA dá 75% de chance do evento superar, entre outubro e dezembro, todos os El Niños registrados desde 1950.
Seca cobre dois terços do país, e o Nordeste é a região mais atingida: 67,4% do território estava sob seca em agosto, contra 51,8% em julho, a maior área desde novembro de 2025. No Nordeste, a seca alcança 90,3% da região, e a seca grave já abrange 16%; na Bahia, mais de um terço daquele território está nessa categoria. No Norte, a área sob seca saltou de metade da região para 81,8% em um mês, e Roraima está totalmente em seca. No extremo oposto, a chuva acima da média deixou o Sul 100% livre do fenômeno. No Sudeste, a chuva tirou São Paulo da seca grave, mas o norte de Minas Gerais e o Espírito Santo, agora inteiramente em seca moderada, pioraram.
Roraima recebe um quarto da chuva esperada e o Rio Branco segue abaixo das mínimas históricas: em 30 dias, choveram 34 mm na bacia do rio Branco, o menor volume de toda a região monitorada pelo Serviço Geológico do Brasil, contra uma mediana de 125 mm para o período. Em Boa Vista, o rio está em 88 cm; em Caracaraí, na curva de mínimas para a época. No resto da Amazônia, a vazante segue dentro do esperado para setembro, mas rápida: o rio Negro baixou 138 cm em Manaus em uma semana, e o rio Purus, mais 155 cm em Beruri. Mesmo assim, Manaus está 5,7 metros acima do nível que tinha nesta data em 2024, ano da seca recorde.
Reservatórios do Sudeste param de cair, mas os açudes do Nordeste seguem em queda: o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o maior do país em capacidade de armazenamento, ficou em 57,4% pela segunda semana seguida, depois de seis semanas de perdas entre o fim de julho e o início de setembro. No Nordeste, o volume dos 543 açudes monitorados pela Ana caiu para 47,4%, e a queda se repete a cada semana desde o fim de agosto. O Ceará teve a maior perda, de quase um ponto percentual, e só a Bahia subiu.
Fogo acelera na Amazônia e encurta a distância para 2025: foram 3.508 focos no bioma entre 15 e 21 de setembro, quase o triplo da mesma semana do ano passado. No mês, o país soma 17.098 focos, 12,5% abaixo dos 19.535 de 2025. O Pará lidera, com 3.855, e o Amazonas aparece em segundo, com 2.720, à frente de estados do Cerrado como Maranhão e Tocantins. No acumulado do ano, a Amazônia soma 26.085 focos, 40% a mais do que em 2025, enquanto o Brasil como um todo tem 63.066, 6,0% a menos do que em 2025.
Tempestades tiram de casa 31 vezes mais pessoas nas três primeiras semanas de setembro do que no mesmo período de 2025: foram 8.100 desalojados ou desabrigados até o dia 21, em 77 municípios de dez estados, contra 260 no mesmo período de 2025. Sete em cada dez estão no Vale do Ribeira (SP), com destaque para Eldorado, Sete Barras, Registro e Iguape; no Paraná, as chuvas deixaram um morto, em Tunas do Paraná, e o mês soma nove feridos. No ano, 540,2 mil pessoas tiveram de deixar suas casas, 63,3% a mais que em 2025, embora o total de afetados, 18,9 milhões em 2.204 municípios de 26 estados, seja 22,8% menor. Na seca, 78 municípios de nove estados tiveram decretos reconhecidos pelo governo federal em setembro; neles vivem 1,03 milhão de pessoas, e o Piauí responde por 33 deles.