Maurício Corrêa, de Brasília (com informações do ONS) —
Depois de encastelar-se, durante anos, numa posição antipática do tipo “aqui ninguém mexe”, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) finalmente rendeu-se a uma das principais reivindicações das áreas empresariais e anunciou que está disposto a abrir os códigos-fontes dos programas computacionais por ele utilizados na formação dos preços da energia elétrica. É uma mudança histórica na maneira como o ONS olha para o setor elétrico brasileiro.
Através de um comunicado discretamente disponibilizado na internet, o ONS informou que está revisando a sua estrutura organizacional para dar mais dinamismo às rotinas que impactam o setor elétrico e ganhar agilidade e autonomia no dia a dia. A iniciativa é parte de um amplo projeto, denominado internamente como Maestro, que está dividida em fases e desenvolverá “modelos computacionais colaborativos”. A previsão é de que, até outubro de 2026, sejam feitos ajustes organizacionais para que a nova configuração da área comece a funcionar e as equipes já iniciem a construção das propostas-piloto.
Entre as novidades que pretende ver implantadas, o ONS reforça o anseio por evolução nas ferramentas computacionais próprias, com códigos abertos e construção colaborativa com a sociedade. “Após concluído o processo, haverá maior independência operacional não apenas do ONS, mas de todo o Setor Elétrico Brasileiro, sendo este um processo estratégico e fundamental para, num futuro próximo, incorporar inovações com mais velocidade e previsibilidade”, assinalou o Operador.
“O Operador segue em sua trilha de inovação contínua. Ao propor ao mercado uma nova configuração de atuação, com ferramentas com códigos abertos, vamos conseguir aproximar o desenvolvimento de soluções à realidade da operação. Com ganhos de qualidade, consistência e aderência da metodologia ao funcionamento do SIN”, resumiu o diretor-geral do ONS, Marcio Rea.
Os códigos-fontes utilizados pelo ONS sempre foram considerados, pelo setor empresarial, uma das principais caixas pretas do setor elétrico brasileiro, razão pela qual os programas computacionais utilizados pelo ONS também sempre foram vistos com ressalva (e até mesmo por desprezado por muita gente), por se tratar de uma espécie de resquício do período autoritário, quando as coisas eram simplesmente enfiadas de cima para baixo na sociedade e a esta apenas restava cumprir o que era determinado.
Uma das piadas que circulam no SEB é que o ONS seria uma espécie de último resquício da ditadura militar no Brasil. “A ditadura acabou há 40 anos, menos na Operação do sistema, que sempre foi verticalizada e foi montada à sombra das estruturas militares que mandaram no MME durante o regime militar. Embora tenha sido criado já no período democrático, o ONS representa uma herança desse autoritarismo”, argumentou um especialista, que preferiu não se identificar, pois lida quase que diariamente com os especialistas do ONS.
Esse executivo, que passou décadas reclamando da falta de transparência no sistema tecnológico utilizado pelo ONS e falando sempre mal do Operador, agora reconheceu para este site que, mesmo sendo um crítico da Operação, precisa admitir que a mudança anunciada pelo Operador é “histórica”, na medida em que a sociedade, finalmente, saberá o que acontece nas entranhas do ONS, ou seja, dentro dos programas computacionais que definem como a energia elétrica, no dia a dia, é gerada, transmitida e utilizada pelos consumidores. “Talvez as pessoas não estejam muito atentas para a decisão, mas o que foi anunciado pelo ONS equivale a verdadeira uma revolução no sistema elétrico brasileiro”, comentou a mesma fonte com inegável entusiasmo.
No momento, o ONS está se preparando internamente, com a ocupação das posições da nova área pelas equipes do Operador. A partir de julho, tem início a operação assistida, fase em que a nova estrutura passa efetivamente a funcionar, de forma faseada e em etapas, com acompanhamento contínuo das diretorias de Planejamento, Operação e de TI, Relacionamento com Agentes e Assuntos Regulatórios.
Ao longo dessas etapas, as equipes começarão a propor e desenvolver novas soluções e ferramentas, com propriedade intelectual do ONS desde o início e código aberto e que serão distribuídas de forma gratuita, substituindo gradualmente as ferramentas utilizadas atualmente, seguindo estritamente todos os ritos da governança setorial.
O diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, destacou que o projeto está ancorado em uma construção conjunta com os agentes do setor. “Esse movimento reforça a capacidade técnica do ONS, avaliando a operação em cenários diversificados ao longo do tempo e uma geração de perfil cada vez mais variável. A proposta é ampliar a transparência de decisões para todos os envolvidos, que também entendem da realidade da operação, trabalhem com a garantia das melhores práticas de uma ferramenta open source em um ambiente colaborativo”, afirmou.