Política Energética, Regulação, Setor Elétrico, Gás Natural, Energias Alternativas, Empresas e Negócios

Mirow & Co alerta para gargalo no mercado de GN. E não será por falta de GN.

Da Redação, de Brasília (com apoio da Mirow & Co.) —

O recente avanço das térmicas a gás natural no Brasil, reforçado pelo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap), que aconteceu no dia 20 de março, mostra um novo desafio estrutural para o setor energético: a falta de flexibilidade no mercado de gás.

Embora o país esteja ampliando a oferta da molécula, a ausência de infraestrutura de estocagem e mecanismos de balanceamento pode elevar custos, aumentar a volatilidade e comprometer a segurança do abastecimento, podendo custar até US$ 12,4 por MMBtu.

Segundo análise da Mirow & Co., consultoria de estratégia com mindset global, o Brasil caminha para um cenário em que haverá gás suficiente em termos volumétricos, mas sem capacidade de resposta adequada às variações de demanda, especialmente diante do crescimento da geração térmica e da maior participação das fontes renováveis.

“O país não enfrenta mais um problema de escassez de gás, mas sim de flexibilidade. Sem estocagem e instrumentos de curto prazo, o sistema não consegue absorver choques de oferta e demanda de forma eficiente”, afirma Raoni Morais, especialista da Mirow.

O tema ganha relevância após o LRCap contratar cerca de 19 GW de potência, majoritariamente de usinas termelétricas a gás natural, em um movimento que reforça o papel do combustível na segurança do sistema elétrico. No entanto, essas usinas exigem disponibilidade imediata e previsível de gás, algo que depende diretamente de uma infraestrutura ainda incipiente no país.

Hoje, o Brasil é o único grande mercado consumidor de gás natural sem capacidade relevante de estocagem subterrânea em operação. Em mercados maduros, como Estados Unidos e Europa, essa infraestrutura é parte central do funcionamento do setor, permitindo reduzir volatilidade, otimizar preços e garantir segurança energética.

Na ausência desses mecanismos, o custo da flexibilidade já se mostra elevado. A Mirow estima que o spread associado ao balanceamento no sistema brasileiroesteja entre US$ 10,5 e US$ 12,4 por MMBtu, uma proxy do custo de lidar com um mercado pouco flexível. Além disso, o perfil da oferta de gás no país está mudando.

O crescimento da produção vem sendo puxado pelo gás associado ao petróleo, especialmente do pré-sal, que possui menor capacidade de ajuste à demanda. Ao mesmo tempo, fontes historicamente mais flexíveis perdem relevância, como o gás importado da Bolívia, que está em declínio comercial.

“O Brasil está entrando em uma fase em que conta com mais gás disponível, mas sem a infraestrutura necessária para transformá-lo em preço competitivo e previsibilidade. Esse descompasso tende a se tornar mais evidente com o aumento do despacho térmico”, diz Raoni.

O gás natural liquefeito (GNL), embora relevante, também não resolve integralmente o problema. No país, seu uso é majoritariamente voltado ao atendimento de usinas termelétricas, sem desempenhar o papel sistêmico de equilíbrio que a estocagem proporciona em outros mercados. Segundo análises de especialistas da Mirow, o avanço do setor passa pela criação de condições para o desenvolvimento de estocagem de gás e mecanismos de balanceamento, além da evolução para um hub físico que permita maior liquidez eintegração entre agentes.

“A ampliação da oferta é significativa, mas não suficiente. A competitividade sustentável do mercado de gás depende da capacidade de equilibrar o sistema ao longo do tempo, e isso exige infraestrutura e instrumentos queo Brasil ainda não possui”, conclui. O estudo da consultoria avalia que a janela entre 2028 e 2029 pode representar uma oportunidade para estruturar esse mercado, com o aumento da produção do pré-sal e maior disponibilidade de infraestrutura, criando condições para arbitragem edesenvolvimento de soluções de flexibilidade.

Posts Relacionados