Da Redação, de Brasília (com apoio do Instituto ClimaInfo) —
Um novo relatório divulgado pelo think tank australiano “Climate Energy Finance” (CEF) mostra que a China já comprometeu mais de US$ 120 bilhões em investimento direto externo em mineração e processamento de recursos desde 2023, incluindo lítio, terras raras, níquel, cobre, minério de ferro de alta qualidade, bauxita e metais preciosos.
Esses materiais são insumos críticos para tecnologias limpas — como baterias, solar, eólica e veículos elétricos — e para a descarbonização industrial na economia global de emissões zero.
O relatório Raw Power complementa o estudo anterior da CEF, “Rising Tide” (2025), que já havia identificado mais de US$ 220 bilhões em investimentos chineses em tecnologias limpas ao redor do mundo no mesmo período.
Os autores afirmam que os investimentos chineses em recursos naturais e tecnologias limpas formam uma estratégia industrial verde global, verticalmente integrada, de escala e ambição sem precedentes — que já se estende por praticamente todas as regiões ricas em recursos do planeta e ajuda a impulsionar a transição energética global.
Domínio profundo e crescente
O domínio da China no processamento é profundo e crescente: 90% do refino global de terras raras, cerca de 60% do processamento de lítio, mais de 70% do refino de cobalto, 60% da fundição de alumínio, 54% da produção global de aço e mais de 90% da produção de materiais ativos para baterias. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que essa participação continuará crescendo até 2030 — conclusão reforçada pela análise da CEF.
Um aspecto central dessa nova fase é a mudança em relação ao modelo anterior, da Iniciativa Cinturão e Rota, que é mais extrativista. Empresas chinesas estão passando a estabelecer parcerias com governos e empresas locais para desenvolver processamento doméstico, transferência de tecnologia, geração de empregos qualificados e infraestrutura — como portos, ferrovias e energia limpa — em troca de acesso de longo prazo aos recursos.
Essa estratégia está sendo implementada em um contexto geopolítico altamente disputado. Com os Estados Unidos se afastando do multilateralismo, questionando a ciência climática e intensificando barreiras comerciais, o centro de gravidade dos investimentos globais em recursos e tecnologia limpa está se deslocando rapidamente para um mundo mais multipolar — com crescente protagonismo do Sul Global.
A crescente influência da China nas cadeias de suprimento de tecnologias limpas cria riscos relevantes para segurança energética, estabilidade geopolítica e competitividade econômica de outros países. Ao mesmo tempo, abre oportunidades transformadoras para países ricos em recursos que conseguem se engajar de forma estratégica com Pequim.
Indonésia
O relatório destaca movimentos recentes de outros países, como as fundições de níquel na Indonésia, onde a combinação de restrições à exportação de minério bruto e atração de investimento estrangeiro — sobretudo chinês — viabilizou a construção de uma cadeia industrial doméstica, incluindo refino e produção de insumos para baterias. Esse modelo tem permitido ao país capturar maior valor agregado, gerar empregos industriais e se posicionar de forma mais estratégica nas cadeias globais da transição energética.
O autor principal do relatório, Tim Buckley, diretor da CEF e ex-diretor-gerente do Citigroup, afirmou:
“O que este relatório documenta não são apenas fluxos de investimento, mas a arquitetura de uma nova ordem industrial verde global. A China construiu uma cadeia de suprimentos verticalmente integrada que abrange todos os continentes, combinando capital estatal com execução do setor privado em uma escala e velocidade que nenhum outro país consegue acompanhar.”
Ele acrescenta que, de projetos de lítio no Zimbábue a mineração de ferro na Guiné, a China está assegurando sistematicamente os recursos que sustentam a economia global de baixo carbono.
“As barreiras comerciais do governo Trump, os ataques ao Irã e o afastamento da transição energética não frearam esse movimento — pelo contrário, o aceleraram. A trajetória da China é de adaptação e aceleração. Outros países podem se engajar estrategicamente com essa realidade ou correr o risco de ficar de fora das cadeias de suprimento que definirão a competitividade industrial e a segurança energética no século XXI.”