Política Energética, Regulação, Setor Elétrico, Gás Natural, Energias Alternativas, Empresas e Negócios

O GLP tem um papel central na transição energética

(*) Sérgio Bandeira de Mello

O debate sobre sustentabilidade, muitas vezes, se concentra nas grandes soluções de
longo prazo. Enquanto isso, milhões de brasileiros ainda cozinham com lenha e carvão, e
pagam com a própria saúde por uma energia que deveria ter sido superada. Hoje, 24
milhões de pessoas sofrem doenças respiratórias causadas pela queima desses
combustíveis em ambientes fechados, o que resulta em mais de 10 mil mortes por ano.
Crianças e mulheres são as mais afetadas, expostas diariamente a uma fumaça tóxica que
provoca desde irritações oculares até câncer de pulmão.

Cerca de 23% do consumo energético residencial no Brasil vem da lenha, segundo a
Empresa de Pesquisa Energética (EPE). É o segundo combustível mais utilizado nas casas
brasileiras, atrás apenas da eletricidade. Estudo do Sindigás, PUC-RJ e Uerj estima que as
doenças provocadas pela lenha para cocção custam mais de R$ 3 bilhões aos cofres
públicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quem vive exposto à fumaça
da lenha em locais fechados tem de duas a três vezes mais chances de desenvolver
doenças pulmonares crônicas.

Nesse cenário, ainda que derivado de combustíveis fósseis, o GLP cumpre um papel central
em uma transição energética. O gás de botijão é 98,6% menos poluente que a lenha ou
carvão no ambiente doméstico e emite 40 vezes menos gases de efeito estufa para gerar a
mesma quantidade energia. A substituição integral da lenha por GLP no uso residencial
reduziria em 97,3% a pegada de carbono. Trata-se de uma solução acessível, presente em
todo o país e capaz de melhorar a saúde e a dignidade de milhões de pessoas.

Ao lançar o Programa Gás do Povo, que prevê a distribuição gratuita de até 65 milhões de
cargas de gás de GLP por ano, beneficiando 15,5 milhões de famílias de baixa renda, o
governo federal deu os primeiros passos para acelerar o combate à pobreza energética. O
impacto social tende a ser profundo e deve gerar um aumento de 7% a 8% na demanda
nacional, exigindo cerca de R$ 2,5 bilhões em novos botijões para garantir a eficiência
operacional do setor.

A infraestrutura necessária para apoiar o programa está disponível. São 180 bases de
distribuição e mais de 59 mil revendas autorizadas pela ANP, cobrindo os 5.570 municípios
brasileiros. O GLP chega a lugares até onde os Correios, saneamento, eletricidade e outros
serviços básicos muitas vezes não chegam, a partir de uma eficiência logística que garante
a entrega de cerca de 13 botijões por segundo, porta a porta, com tempo médio de 17 a 30
minutos entre o pedido e a entrega.

Um botijão de 13 quilos dura em média 60 dias e prepara mais de 325 refeições, segundo a
PNAD 2019. Isso significa segurança alimentar sem fumaça tóxica, sem risco de
queimaduras, sem afastar crianças da escola para coletar lenha e sem estimular o
desmatamento ilegal.

Além disso, o setor é referência internacional em logística reversa. Com o Programa de
Requalificação de Botijões, as embalagens de aço são reutilizadas por anos, submetidas a
testes rigorosos de qualidade e de pressão duas vezes superior à normal de uso. Isso
acontece pela primeira vez com 15 anos de uso, depois a cada dez anos. Quando chegam
ao fim da vida útil, os botijões são inutilizados e reciclados em siderúrgicas. Nenhum é
descartado na natureza.

A energia em lata que bate à porta dos brasileiros, em todos os municípios do país, é uma
ponte imediata entre a realidade atual e uma transição energética justa. Para isso,
segurança jurídica e regulatória são fundamentais. O setor de GLP está pronto para ampliar
investimentos e universalizar o acesso a uma energia mais limpa e mais segura que a lenha
e o carvão – uma energia que transforma vidas, pois é dentro de casa, onde a fumaça ainda
sufoca crianças e mulheres, que a sustentabilidade social realmente deve começar.

(*) Sérgio Bandeira de Mello é engenheiro civil e preside o Sindigás, entidade que reúne empresas distribuidoras de GLP.

Posts Relacionados