Da Redação, de Brasília (com apoio da Memória da Eletricidade/AE) —
No Dia Nacional da Cultura e da Ciência, a Memória da Eletricidade destaca como documentos preservados ao longo de 40 anos ajudam a produzir novos conhecimentos sobre a história do país
O que uma fotografia da construção de uma usina hidrelétrica pode revelar sobre o Brasil de um século atrás? E os documentos guardados por um engenheiro durante sua trajetória profissional? Ou um relatório técnico, um mapa, uma publicação especializada, uma entrevista realizada décadas depois de determinado acontecimento?
Quando preservados, organizados e colocados à disposição da pesquisa, esses registros ultrapassam sua função original. Tornam-se fontes para compreender não apenas a história da eletricidade, mas também as transformações tecnológicas, econômicas, sociais e culturais que acompanharam o desenvolvimento do país.
Neste 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura e da Ciência, a Memória da Eletricidade chama atenção para essa relação entre preservação, patrimônio e produção de conhecimento. Há 40 anos, a instituição reúne, organiza, preserva, pesquisa e difunde documentos relacionados à trajetória do setor elétrico brasileiro, formando um acervo que hoje ultrapassa um milhão de itens.
São fotografias, documentos técnicos, livros, objetos, registros sonoros, depoimentos e outros materiais que permitem observar a história sob diferentes perspectivas. O conjunto é formado por arquivos institucionais e pessoais, projetos de História Oral, pesquisas históricas e acervos bibliográficos e museológicos, organizados em oito tipologias: Iconografia, Audiovisual, Biblioteca, Sonoro, Documentos Textuais, Tridimensional, Fundos e História Oral.
A diversidade é uma das características que tornam esse patrimônio especialmente relevante para a pesquisa. Um mesmo acontecimento pode estar registrado em uma fotografia, descrito em um relatório técnico, lembrado décadas depois em um depoimento ou contextualizado por livros e periódicos. Quando essas fontes são relacionadas, surgem novas possibilidades de interpretação.
Um acervo que cresceu junto com a instituição
A formação desse patrimônio acompanha a própria trajetória da Memória da Eletricidade. Desde o início das atividades, documentos produzidos e acumulados por empresas, órgãos e profissionais ligados ao setor foram incorporados à instituição por meio de doações. Ao longo das décadas, a chegada de novos conjuntos ampliou não apenas a quantidade de itens preservados, mas também as possibilidades de compreender diferentes momentos, personagens e experiências relacionados ao desenvolvimento da eletricidade no país.
Dois conjuntos recebidos ainda nos primeiros anos ajudam a dimensionar esse processo.
Em 1988, a instituição recebeu a biblioteca particular do engenheiro Léo Amaral Penna. O conjunto tornou-se uma das bases do patrimônio bibliográfico preservado pela Memória e contribuiu para a formação da atual Rede de Bibliotecas da Energia, que reúne mais de 160 mil itens entre livros, relatórios técnicos, documentos históricos e publicações científicas.
No mesmo ano, outro acervo começaria uma longa trajetória dentro da instituição: o conjunto de documentos iconográficos do engenheiro César Rabello, responsável pelo projeto e pela construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, conhecida como Usina de Piabanha.
Décadas depois, esse conjunto mostraria de forma muito concreta por que preservar também significa criar possibilidades para novas pesquisas.
Piabanha: quando documentos preservados voltam a contar histórias.
O acervo relacionado à Usina de Piabanha reúne 400 fotografias e um livro de registro, doados por Cesar Rabello Cotrim, neto de César Rabello. As imagens documentam o processo de construção da usina, concebida em um momento de crescimento da demanda por eletricidade no estado do Rio de Janeiro no início do século XX
Durante anos, esses registros permaneceram preservados como parte do patrimônio documental da instituição. Mas preservar não significa simplesmente guardar.
As fotografias passaram por processos de conservação e digitalização realizados pela equipe da Memória. A pesquisa e a contextualização permitiram que os registros fossem novamente mobilizados e ganhassem novas formas de acesso. Em 2026, o conjunto deu origem a uma exposição virtual dedicada à Usina de Piabanha no Google Arts & Culture.
O percurso ajuda a demonstrar o ciclo que sustenta um acervo: um documento é incorporado, identificado, organizado, preservado, pesquisado e pode, anos ou mesmo décadas depois, responder a perguntas que sequer existiam quando ele foi produzido ou quando chegou à instituição.
É justamente essa possibilidade que transforma o acervo em espaço permanente de produção de conhecimento.
Preservação é um trabalho contínuo
Entre o documento guardado e o documento disponível para um pesquisador existe uma série de atividades que muitas vezes permanece invisível para quem consulta um acervo.
Organizar, descrever, acondicionar e digitalizar são algumas das etapas necessárias para garantir tanto a preservação física quanto a recuperação das informações. Nos projetos atualmente desenvolvidos pela Memória, o tratamento arquivístico também envolve procedimentos como descrição padronizada, indexação e utilização de tecnologias de reconhecimento óptico de caracteres, o OCR, ampliando as possibilidades de localização e consulta dos conteúdos.
Esse trabalho é importante porque os documentos chegam aos acervos em diferentes suportes, formatos, condições de conservação e níveis de organização.
Ao receber um arquivo pessoal, por exemplo, não se recebe apenas um conjunto de papéis. Ali podem estar registradas relações profissionais, decisões, projetos, redes de colaboração e experiências que ajudam a complementar aquilo que aparece nos documentos oficiais das empresas e instituições.
Da mesma maneira, fotografias podem registrar transformações da paisagem; projetos técnicos ajudam a compreender soluções adotadas em determinado período; livros e periódicos revelam o conhecimento que circulava entre profissionais; e depoimentos de História Oral acrescentam experiências e perspectivas individuais à documentação escrita.
É no encontro entre essas diferentes fontes que novas perguntas podem surgir.
Patrimônio, ciência e cultura
Pensar um acervo do setor elétrico como patrimônio significa reconhecer que a história da energia não está restrita à história das empresas, das usinas ou das tecnologias.
A expansão da eletricidade transformou cidades, alterou paisagens, impulsionou atividades econômicas, modificou hábitos cotidianos e participou de diferentes processos de desenvolvimento do país. Os documentos produzidos ao longo dessa trajetória carregam vestígios dessas transformações.
Por isso, preservar documentos do setor elétrico é também preservar fontes para pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.
Ao completar quatro décadas, a Memória da Eletricidade continua ampliando esse patrimônio. Somente em 2025, 11 diferentes doadores contribuíram para a incorporação de mais de 2.200 itens ao acervo, demonstrando que a construção dessa memória permanece em movimento.
Ao mesmo tempo, novas tecnologias e formas de difusão permitem que documentos antes acessados principalmente por pesquisadores especializados cheguem a públicos cada vez maiores. Desde 2025, por exemplo, diferentes descobertas realizadas a partir dos acervos passaram a ser transformadas também em exposições virtuais no Google Arts & Culture.
No Dia Nacional da Cultura e da Ciência, essa trajetória ajuda a lembrar que preservar e pesquisar são atividades inseparáveis. Um documento preservado não guarda apenas aquilo que já sabemos sobre o passado. Ele permanece disponível para as perguntas que ainda serão feitas.
É por isso que, quatro décadas depois, o trabalho de construir, cuidar e ampliar um acervo sobre a energia no Brasil continua sendo também um trabalho sobre o futuro.

