O professor Edvaldo Santana, renomado consultor do setor elétrico brasileiro, publicou em sua página no Linkedin o texto “Abertura do mercado livre de energia é bagaço de laranja”, que, com autorização do autor, o site “Paranoá Energia” reproduz abaixo:
Abertura do mercado livre de energia é “bagaço da laranja”
A estrofe abaixo é o refrão de inspiradora canção Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho:
“Fui no pagode
Acabou a comida, acabou a bebida
Acabou a canja
Sobrou pra mim o bagaço da laranja
Sobrou pra mim o bagaço da laranja”
A canção tem uma história: segundo consta, Zeca e Arlindo foram convidados para uma feijoada, mas, por diversas razões, atrasaram. Quando chegaram, só existia, numa bacia de lixo, o bagaço da laranja.
Foi assim também com os pequenos consumidores de eletricidade. O mercado livre foi criado em 1995, mas você e eu não fomos convidados para o primeiro cercadinho VIP criado no SEB. Mas pagamos a conta, como é o padrão de todos os cercadinhos elétricos. Foram mais de R$ 250 bilhões em 20 anos.
Até 2024, quem migrava podia ter a conta reduzida, em alguns casos em até 40%. Os “não-livres” suportavam essa diferença, que vinha dos subsídios às renováveis e aos grandes consumidores, do menor custo da “energia velha”, dos custos da segurança e confiabilidade e por aí vai.
Durante anos o lobby das comercializadoras mostrava um gráfico que era o retrato exato do mercado livre. Era a figura da boca aberta de um sedento e saudável jacaré. A parte de baixo era o preço do cercadinho, a de cima, que crescia a taxas crescentes, era a nossa. Justiça seja feita, teve época em que esse jacaré elétrico era a única coisa que funcionava no SEB. Mas foi abatido por um modelo de preço antes festejado. O jacaré virou lagartixa.
Mas há louco para tudo. A abertura decretada ontem será tão efetiva quanto um tiro n’água. Sem os subsídios que nós mesmos patrocinamos para o cercadinho dos grandes consumidores, a vantagem de migrar virou enorme desvantagem, e eu e você ainda teremos que assumir os extravagantes riscos do tal supridor de última instância e da comercialização de quem já começa perdendo.
Os geniais Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho têm outro verso para isso:
“Eu te dou muito dinheiro e tudo você esbanja
Sobrou pra mim o bagaço da laranja”.
E segue.