Maurício Corrêa, de Brasília —
A diretoria colegiada da Aneel deverá aprovar, em sua próxima reunião, a abertura de consulta pública para definir o percentual do reajuste tarifário anual da concessionária de distribuição de energia elétrica no Distrito Federal, a Neoenergia.
A nota técnica que balizará a consulta pública lembra que a Neoenergia, no DF, atende a aproximadamente 1,23 milhão de unidades consumidores, representando um consumo anual da ordem de R$ 3,86 bilhões.
O contrato de concessão, assinado em 1999, define a data de 22 de outubro de 2026 para a Revisão Tarifária Periódica da Distribuidora. Em 20 de outubro do ano passado, foi aprovado o Reajuste Tarifário Anual de 2025 da Neoenergia Brasília, o qual conduziu a um efeito médio de 11,93% aos consumidores da área da concessão.
Agora, na proposta de abertura de Consulta Pública referente à Revisão Tarifária Periódica de 2026, a agência reguladora propõe um efeito médio nas tarifas a ser percebido pelos consumidores de 1,86%, sendo de 3,95% em média, para os consumidores conectados na Alta Tensão e de 1,10% em média, para os consumidores conectados na Baixa Tensão.
Para a concessionária é uma pancada e tanto, mas isto não significa algum tipo de punição pela qualidade do serviço de baixo nível que vem sendo oferecido pela empresa aos seus consumidores. O processo de reajuste tarifário é exclusivamente técnico, não qualitativo, e diz respeito às complexas operações envolvendo a compra e venda de energia praticadas por qualquer concessionário de distribuição.
A inflação dos últimos 12 meses, no Brasil, foi de 4,64%, medida pelo IPCA, e de 4,33%, medida pelo INPC. Caso o reajuste a ser atribuído à Neoenergia Brasília fique abaixo desses números da inflação oficial, a concessionária precisará ajustar seus custos, mas não será o fim do mundo.
Afinal, a empresa Neoenergia faz parte de um grupo maior, de origem espanhola, a Iberdrola, que é extremamente agressivo nas suas receitas, a nível mundial, e que, por isso, tem oferecido um belo lucro aos seus acionistas.
Matéria publicada pelo site “Paranoá Energia”, há poucos dias, dando divulgação a um texto originalmente distribuído pela Agência Estado (cujo conteúdo, sob contrato, é comprado pelo site) indica que a Iberdrola informou, na quarta-feira, 22 de julho, que registrou lucro líquido de 4,34 bilhões de euros entre janeiro e junho, ante 3,56 bilhões de euros no mesmo período do ano passado. A receita avançou quase 2%, para 22,47 bilhões de euros. É muita grana. Segundo dados oficiais da própria Neoenergia, o lucro líquido de todas as empresas do grupo, no Brasil, no ano passado, alcançou R$ 5 bilhões.
Ou seja, é um grupo extremamente lucrativo em nível mundial. Caso a sua concessionária no DF receba um aumento médio, da Aneel, inferior à inflação brasileira, a empresa certamente não vai quebrar. A empresa precisa, sim, melhorar com urgência a sua gestão e a qualidade do serviço oferecido aos consumidores de energia elétrica do Distrito Federal.
Na Capital do Brasil, a Neoenergia não pode continuar a oferecer o serviço de país de terceiro mundo que oferece aos seus consumidores. Isso depõe contra a sua própria controladora, a Iberdrola. No gigantesco prédio situado em Bilbao, no País Basco, onde se localiza a sede da empresa, os dirigentes da Iberdrola com certeza não se contentam com o serviço da concessionária de Brasília.
Trata-se de uma multinacional que atua em vários mercados de distribuição e certamente os dirigentes da Iberdrola têm alguma dificuldade para entender como num mercado relativamente simples, como o de Brasília, os números podem ser tão ruins, o desempenho idem e podem existir tantos problemas com os consumidores locais.
Este site arrisca um palpite. Talvez tenha a ver com a qualidade dos executivos que dirigem a companhia no Brasil, que não sabem escolher os seus representantes em Brasília. Agora, por exemplo, o presidente local foi destituído e substituído por outro executivo, que veio de outro estado. Oxalá desta vez a empresa acerte o nome e a Neoenergia Brasília deixe para trás o caminhão de problemas que a empresa vem carregando desde que assumiu a concessão. Muita coisa já melhorou, desde a antiga estatal CEB, mas ainda tem muito chão pela frente.
Em vez de pensar apenas nas extraordinárias paellas, nos deliciosos pintxos ou nos saborosíssimos pulpos de Bilbao, os espanhóis da Iberdrola precisam comer mais feijão com arroz, linguiça e farofa e lembrar de vez em quando que eles têm um problemão para resolver em Brasília, Brasil, que se chama Neoenergia DF.