Maurício Corrêa, de Brasília —
O diretor de uma comercializadora independente disse a este site que está desanimado com os negócios. Já demitiu 50% do pessoal e está espremendo as contas a pagar, pois já não tem o que fazer há muito tempo. Os geradores não querem vender energia para os comercializadores independentes, alegando que eles não oferecem garantias satisfatórias, e sem energia na carteira, não dá para fazer “trading”. Resultado: o faturamento caiu assustadoramente.
Essa empresa não é um caso isolado. É provável que em pouco tempo, pelo mesmo motivo, a Abraceel perca grande parte da sua vistosa relação de associados. É possível que a própria associação tenha que se ajustar às novas circunstâncias.
Uma engenheira que trabalhou em comercializadoras durante muito tempo e que resolveu deixar o segmento (prefere agora atuar na área de engenharia propriamente dita), está encerrando um ciclo de sua vida em relação às comercializadoras. Desistiu delas. Na sua visão, elas criaram um mercadinho interessante, bem protegido, mas que, 20 anos depois, colapsou.
“Estou praticamente recomeçando a minha carreira do zero, com uma empresa pequena. Mais tarde, dependendo da situação da economia em geral, vou tentar expandir e me consolidar na engenharia. Chega de mercado livre de energia. Deu o que tinha que dar”, desabafou.
Entretanto, a executiva não desistiu de trabalhar na área de energia elétrica. Só mudou o seu foco de atenção, que agora está voltado para o armazenamento. “Penso que é um setor que gera oportunidades e resolvi apostar nele”, frisou.
De fato, o ML está passando por uma fase de depressão poucas vezes vista, justamente em um ano que prometia muito progresso, devido à prometida abertura do mercado. A abertura veio, depois de muita luta junto ao Poder Executivo e no Congresso Nacional, só que quem vai usufruir das novas oportunidades dificilmente serão as comercializadoras independentes, pois o horizonte para elas está se fechando cada vez mais.
É possível que nesse novo ambiente de contratação livre sobrem apenas as grandes comercializadoras que não têm dificuldades para aportar garantias, pois são vinculadas aos conglomerados financeiros, ou então aquelas que fazem parte de conglomerados elétricos e que, nos respectivos grupos, contam com grandes volumes de geração própria.
Um gerador ouvido pelo “Paranoá Energia”, que há muito tempo critica a postura das comercializadoras, entende que, de certa forma, elas cavaram as suas próprias desgraças, pois durante anos evitaram conversar sobre a necessidade de ampliação das garantias contratuais.
“Eu, como gerador, não tenho nenhuma obrigação de vender a minha energia elétrica para ninguém. Afinal, o mercado é livre para todo mundo, não apenas para as comercializadoras. Podem chiar à vontade, mas eu não vou vender a minha energia sem garantias e, lá na frente, levar um calote de alguém”, comentou com este editor.
Essa é uma situação que, de fato, vem tirando o sono de muita gente: a quantidade de empresas em recuperação judicial envolvendo comercializadoras. Incapazes de aguentar o tranco no chamado período seco, quando os preços computadorizados costumam subir como mísseis iranianos, longe de qualquer cálculo prévio racional, várias comercializadoras começam a abrir o bico, deixando pelo caminho uma bela inadimplência.
Este site tem conversado com especialistas da área de energia elétrica e é possível que, nas próximas semanas, a lista de comercializadoras quebradas seja engrossada inclusive com nomes tradicionais do mercado. O zum-zum-zum no mercado está cada vez pior. Este editor não acha qualquer graça em escrever isto, mas infelizmente esta é uma hiipótese provável.