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Crise do SEB cresce em silêncio. Em algum momento, a bolha vai estourar

Ao contrário das autoridades do setor elétrico, para as quais tudo é sempre festa (ministro Alexandre Silveira, presidente do CA da CCEE, Alexandre Peixoto, diretor-geral do ONS, Marcio Rea, e do diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa), o mercado aparentemente está mergulhando de cabeça numa crise, que dentro de poucos meses vai deixar muitos mortos e feridos pelo caminho.

Nesta sexta-feira, 06 de fevereiro, o ONS definiu o valor do CMO em R$ 382,93, contra R$ 322,62 na semana anterior e R$ 308,90 na imediatamente anterior a esta. Muita gente poderá dizer assim: o mercado é dinâmico e tem essas altas e baixas. Só que este ano tem uma grande diferença: os movimentos de alta estão ocorrendo exatamente em pleno período úmido, ou seja, quando deveria ter água sobrando nas hidrelétricas do Sudeste. Acendeu o sinal amarelo.

Só que, em termos de água, São Pedro anda meio econômico. E nas leis do mercado elétrico, não tem meio termo: sobrou água, o preço cai; faltou água, o preço chove. Como este site já indicou em outros textos, a perspectiva de ocorrer novo racionamento, como em 2001/2002, é praticamente rara, pois o Brasil, hoje, conta um parque térmico grande, sem contar as energias renováveis. As dificuldades este ano deverão estar ligadas ao bolso do consumidor, pois a tendência é o preço subir.

O valor do PLD máximo definido pela Aneel para 2026 é de R$ 785,27. O CMO bate mais ou menos com o PLD. Então, o CMO está em marcha batida rumo às alturas. E O PLD não é apenas uma sigla a mais, das tantas que existem por aí: é o preço referencial para o mercado de curto prazo na energia elétrica.

Tem uma crise estrutural no SEB que vem sendo escondida pelas autoridades do mercado, pois 2026 é ano de eleição e os políticos no Poder não querem nem ouvir falar de conta alta de energia elétrica para os consumidores, que também são eleitores. Nesse contexto, parece que vai coincidir a eleição com preços altos, o que não é boa expectativa para o Governo, pois a oposição poderá ter um motivo adicional para entrar matando e ganhar votos.  

A situação no mercado elétrico é complexa, pois as comercializadoras independentes estão sofrendo na carne com a evolução dos preços no curto prazo. Várias abriram o bico nos últimos meses e, a se confirmar essas previsões de alta, outras deverão bater na porta do Poder Judiciário para pedir recuperação judicial.

Por isso, no mercado elétrico todo mundo está em compasso de espera. Conglomerados do setor, que possuem grandes geradoras e tem energia para vender, simplesmente caíram fora do mercado livre. Desativaram as suas comercializadoras ou estão fazendo com que elas operem o minimamente possível. Não querem correr o risco de fazer o “trading” com outras comercializadoras que poderão estar bichadas e eles não sabem.  Preferem operar apenas com a energia própria.

Está um Deus nos acuda. O que vem pela frente? Difícil adivinhar. Talvez quebra de comercializadoras independentes. Talvez aumento da conta de luz para os consumidores; Se acontecer isto, aliás, será uma ironia, pois a teoria diz que se há água nos reservatórios, não pode ocorrer aumento do valor da conta de energia elétrica.

É lógico que tem uma situação aí a ser enfrentada, mas para isso é preciso ter um presidente da República forte e um ministro de Minas e Energia forte. Não é o caso do Brasil neste momento, em fim de mandato presidencial. Eles precisam ser fortes para tomar medidas revolucionárias, pois comprariam muita briga com interesses de grupos há muito tempo estabelecidos.

É preciso acabar com a formação de preços da energia através de programas computacionais e também desenhar um novo modelo de garantias para os operadores do mercado. Não é justo que os geradores tenham que carregar nas costas os riscos de um modelo mambembe. Essas duas mudanças representam quase uma guerra. Não é qualquer um que pode entrar nela.

Além disso, um presidente forte e um ministro forte precisarão redesenhar totalmente o modelo institucional do setor elétrico brasileiro, pois o que existe hoje está falido. Se ninguém atacar essas três situações, vamos continuar patinando, sem sair do lugar e apenas brincando de setor elétrico.

E o setor privado, coitado dele. Faz o que pode. Mas a anarquia da área institucional, que opera um modelo falido, bate diretamente na área privada, que também tem que dançar conforme a música. E um detalhe que chama a atenção na desorientação do setor privado é o modelo institucional de representação empresarial.

Quando existem quase 40 associações empresariais representando o setor elétrico brasileiro, cada uma representando um nicho por menor que seja, tá na cara que esse modelo atomizado também tem pouquíssima eficiência. Na prática, a representação é quase nula.

Enfim, continua todo mundo enganando bem. O governo finge que manda, as associações fingem que representam, e vai todo mundo em frente aos trancos e barrancos. Alguém disse há poucos dias a este idoso editor que sempre foi assim. Mas isso não significa que não se possa mudar e tentar construir algo diferente. O editor acredita que sim, que se pode mudar e tentar fazer algo melhor.

Agora, por exemplo, sem entrar no mérito porque foi feito ou está sendo feito, mas duas associações empresariais do setor elétrico (praticamente três) estão trocando os seus presidentes executivos. E tentando fazer algo diferente. É difícil, mas não é impossível. O “Paranoá Energia” deseja sucesso, pois é muito importante nunca se acomodar no mais do mesmo.

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